A Triste Époque de Belém: ou sobre a distopia da arte de uma nova geração

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Quando era adolescente, eu me perguntava do porquê que não via estórias futuristas sobre o Brasil, sobre Belém. Amante dos filmes de ficção científica e da cultura cyberpunk dos anos 80, achava que seria muito interessante que se contasse sobre a Belém do futuro, que nunca encontrava, apesar de tantos motivos para justificar tal produção artística. E parece que a coisa mudou…

Em 2016 foi quando tive acesso ao incrível trabalho das narrativas hiperrealistas do Edyr Proença, como “Psica” e “Selva de pedra”. Do ponto de vista estético-político, essas obras representam a transformação em arte, enquanto modo de criar um mundo outro, mais verdadeiro que o real, da experiência da violência extrema, ampla e irrestrita que vivenciamos na Amazônia urbana. E lembro de sua obra aqui porque tenho uma tese…

Acredito que o trabalho de Edyr pode ter aberto um caminho para algo original nas nossas terras. Salvo o meu engano sobre o pioneirismo deste movimento, vejo um avanço de produções artísticas com narrativas fantásticas e também distópicas sobre nossa cidade… Eu ja tinha visto isso na Novela Grafica de “Castanha do Pará”, um premiado trabalho gráfico e de roteiro, que traz um enredo alegórico, de um realismo fantástico interessante, com personagens antropomórficos, no ambiente do Ver-o-peso. Mas só mais recentemente foi que vi o surgimento de narrativas distópicas, futuristas, ao estilo cyberpunk, que tanto gosto.

O belo trabalho de Keoma Calandrini e de outros no campo do desenho e novela gráfica, além da incrível obra cyberpunk de paraense Clara Gianni na literatura, estão mostrando que a arte paraense atingiu a maturidade necessária para representar a cidade de um outro modo, viabilizando uma verdade do espírito do nosso tempo: a de que vivemos uma cidade em profunda crise política, humanitária e ecológica.

Acredito que também o esgotamento do real belenese, de suas promessas e esperanças, além do esgotamento do próprio romantismo saudosista das falsas memórias de uma Belle Époque, resultaram neste esforço destes artistas de retratar uma Belém do futuro pós-apocalíptica, caótica, que vive um desastre ecológico quase irreversível.

Artistas como Keoma e Clara são uma geração que estão já muito longe de acreditar nas falsas e velhas promessas de um país do futuro, como se dizia na Ditadura Militar, tampouco numa região que seria o “Celeiro do mundo”, a ser ocupada para a sua própria salvação.

Muito diferentemente do que se pode pensar, creio que a arte futurista fala muito mais de um presente, do que de um futuro. Especificamente quanto ao futurismo distópico, este presente projetado é muito mais a expressão do presente violento que vivemos, do que mera versão do Romantismo pós-industrial do final do sec. XIX e do sec. XX.

Vivemos uma geração sem promessas, sem utopia. Resta a nós, então, contarmos sobre o que estamos sendo, sobre o caminho de um “desprojeto” que somos. Mas em meio a esta melancólica constatação sobre a cidade, a mim me parece que algo importante surgiu: será que estamos vendo, ao menos no campo estético, o início de um processo de superação do “sebastianismo” de que o Prof. Fábio de Castro tão bem retratou sobre Belém no seu famoso livro?

Se sim, então estamos tendo a oportunidade de ver a arte projetando o juízo final da nossa cidade. Mas sem messias. Nenhum rei retornará. Talvez este movimento artístico esteja nos dizendo que já vivemos, nesta segunda década do séc. XXI, o que vou chamar de “Triste Époque”.

Já não mais nos protegemos do nosso passado escravocrata, pós-Brigue Palhaço, de colonialismo atualizados a cada fase (da real, imperial, até às republicanas), como o nosso antigo escudo mnemônico da Belle Époque que nunca vivemos. Agora, parece que temos a chance de já de finalmente nos lançarmos ao futuro, ainda que poluído, desigual, dominando por grandes corporações — como uma estória cyberpunk tem de ser.

Mas ainda sim, um futuro… Como diz Agamben, lendo Kafka, o futuro depois do Juízo final poderia ser o propriamente humano… Mesmo que o humano aqui não seja o que tradicionalmente possa se estar pensando. Afinal, estamos falando de arte cyberpunk…

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A MELANCOLIA FANTASMAGÓRICA DE “TRAMA FANTASMA”

 

Sobre “Trama fantasma”, e respondendo à interpretação de Juliana Pontes, na buscan por hipóteses para se saber do porquê da palavra “fantasma” no título do filme, lembrei aqui do livro do Agamben, “Estâncias: a palavra e o fantasma na cultura ocidental”, que saiu pela UFMG, no Brasil.

Nessa obra Agamben pode oferecer uma possibilidade de leitura do filme ao relacionar luto, melancolia e o tema da fantasmagoria. Basta que se lembre do personagem Woodcock como sendo a figura melancólica da gravura de Durer. Mas em vez de régua e compasso do geômetra, que tenta adequar as representações ideais ao concreto, Woodcock usa agulha e fita métrica.

“Fantasma” é a trama de amor de Woodcock, típico dos melancólicos, que, como explica Agamben, possuem a fantasia infantil (e neurótica) de achar que “só se pode possuir o que está perdido”, pois seu prazer está sempre nesta ambiguidade, do espectro da perfeição irrealizável, mas que mantém aceso o desejo, a vida contra a morte, mantendo a bílis negra que lhe resta enquanto vive.

“Maria Madalena” e o Reino que vem

 

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“Maria Madalena” (2018) é a minha aposta para o Oscar do ano que vem. Rooney Mara e o Joaquin Phoenix me emocionaram durante todo o filme. Sim, é um acerto de contas com a figura das mulheres e também com os seguidores negros de Jesus, quanto ao imaginário nosso.

Mas para além disto, o filme é uma beleza de interpretação e construção narrativa. As imagens da Judeia, do Templo, os milagres… Tudo feito de modo muito belo, acompanhado de uma trilha muito digna. Enfim, fiquei muito emocionado.

Há uma temática muito evidente no filme que me chamou a atenção. Não é nenhuma novidade em filmes sobre a Paixão, mas nesse o tema do messianismo e da revolução me pareceu muito bem retratado. A teologia politica da Paixão cristã se faz na oposição entre reforma x revolução, utopia x niilismo (me refiro a um tipo de niilismo específico, ao da negação da Terra, via certo ceticismo quanto à transformação do mundo).

Lembrando que esta temática tem de fundo a antiga oposição(?) entre ser x logos, ou seja, entre aquilo que se manifesta, revela-se, versus aquilo que é do mistério, do incompreendido pela nossa linguagem. Talvez isso se dê porque o filme com R. Mara e J. Phoenix esteja jogando com os símbolos tradicionais do feminino x masculino.

Martins

 

Ando cansado de estudar para escrever a minha tese em casa. Minha familia é muito agitada. Uma vez até perguntei pro meu pai, se os Martins tinham sangue italiano, porque não é possível, olha — okay, está na hora de eu sair de casa, eu sei…

Fui dar uma volta. Acertei a barba. Chovia muito e não quis voltar pra casa — tenho pavor da tarde chuvosa em Belém. Não fico em casa por nada nestas condições. Questão de sobrevivência. Autoconservação. Então resolvi dar uma passada na Fox, como sempre.

Trouxe comigo meu livro do Korzeniowski, sobre Betti e sua “ermeneutica”, tema do último capítulo da minha tese — agora vai.

Sentadinho aqui, bem ao meu lado, tinha um senhor muito simpático. Vestia um boné curioso, cheio de insígnias do partido comunista, da União Soviética — imagino a perseguição que ele deve sofrer nas ruas, em tempo de II Guerra Fria brasileira.

Ele estava lendo um livro grosso, de edição bem bonita. Não me contive. “Que livro é esse aí?”. “Ah, é o livro que inspirou o filme “A viagem” (Atlas cloud)”. “Sim, sim. Acho que sei qual é. Eu adorei o filme. Foi feito pelas irmãs que dirigiram Matrix”.

Eu sempre amei esse filme. No Brasil, ele ganhou um titulo espírita. Sem muito spoilers, é bem compreensível esta decisão da distribuidora brasileira porque a estória alude à novela homônima, da Globo, muito famosa.

“Será que tem outra unidade pra mim? É incrível como levamos muitas vidas para tomar uma atitude diferente. Para nos livrarmos dos nossos perseguidores. E para entendermos que, não, não existe este papo ‘ordem natural’ alguma sobre quem nós somos”. Ele concordou. Disse que não tinha visto o filme ainda. Preferia ler a estória antes…

Enquanto ele falava, ia lembrando do meu falecido avó e de seu irmão. Ambos comunistas, perseguidos pela ditadura. Lembrei do meu pai também, gripado em casa, e como ele teve muito jogo de cintura naquele tempo. Meu pai trabalhava na atual “Casa das 11 janelas”/Forte do Castelo, como tenente do Exercito Brasileiro. O complexo era um presídio e quartel. O jogo de cintura que ele teve se deu porque na mesma época que trabalhava lá como oficial, o tio dele, meu tio-avô Oswaldo Evandro Martins, fora preso em Fortaleza e transferido pra Belém — de pijama mesmo, foi preso de madrugada, enquanto ele lia poemas do Drummond. Este meu tio-avô era do Pecebão e tinha morado em Moscou. Enfim, meu pai estava enrascado.

Bem, a memória veio em milésimos de segundos. Estive ausente por todo este tempo. Mas voltei pra conversa. “Tenho que ir. A chuva acabou”. “Está bem, muito prazer”. “Prazer é meu, eu me chamo Martins”… Fiquei rindo sozinho por uns segundos. Ele ficou meio constrangido. “Que foi?”. “Nada! É que eu também me chamo Martins, Ricardo Martins”. Ele riu alto. “Então deves ser gente boa!”. “Obrigado! Talvez eu seja!”.

Espero que não leve muito tempo… Muitas vidas…. À custo de muitas vidas…

“Her” e a ilusão do amor

Não é um texto melancólico. É que estou há anos querendo escrever um texto sobre “Her”. E resolvi escrever pra ti. Eu vi esse filme no cinema em 2013. Mas acho que só agora é que pude reunir uma ideia um pouco mais “fechada” sobre a experiência com o filme de Jonze. Quis escapar da crítica à efemeridade das relações, do risco da solidão tecnológica, da inteligência artificial… E tentando resistir ao sono interminável que você, 2017, me deu e à preguiça de escrever um texto mais acadêmico, vou tentar ser o mais direto possível. Prometo.

Retomando rapidamente a estória, o filme gira em torno de Theodore, interpretado pelo melancólico J. Phoenix. Ele tenta superar o fim do seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Eles terminaram porque ele teria deixado a sua esposa “só” no relacionamento. Nesse processo todo ele compra uma sistema operacional de inteligência artificial, a Samantha, que só aparece como voz. A rouca e sedutora voz da S. Johansson… Bem, é claro que esse relacionamento não poderia dar certo. E não porque Samantha seria “artificial”, “robótica”. É claro que estava fadado ao fracasso não só pela desumanidade de Samantha, pois não tem um corpo, mas também por causa das muitas potencialidades igualmente problemáticas, já que são sobre-humanas. Samantha podia falar com milhares de pessoas interessantes ao mesmo tempo, inclusive com outros sistemas operacionais, enquanto Theodore não passava de um sujeito classe média, escritor de cartas e bilhetes por encomenda.

O fracasso do casal Theodore-Samantha é o fracasso de qualquer casal: “Her” é uma metáfora sobre como nos relacionamos com a nossa fantasia do outro, com a ilusão que o outro pode nos oferecer. Com o que supomos que ele pode nos completar, como as fantasias da segurança afetiva, do acolhimento, da vida pequena burguesa num apartamento acolhedor, vendo filme francês antigo, fantasias com a segurança financeira, viagens, com uma família acolhedora,
presente e amorosa (que você talvez não teve), com os risos, cartas de amor escritas com sinceridade…

Samantha se desinteressa por Theodore. E ele é entediante mesmo. Melancólico demais, solitário demais. Afinal, é só mais uma pessoa no mundo. Só que a gente precisa sempre lembrar que Samantha não existe! Theodore namora consigo mesmo o filme inteiro. Mesmo na cena genial do sexo “a três”, não tem “três”! Contudo, quero ousar dizer aqui que também não tem ninguém naquele quarto. São dois corpos e muita narrativa. Muitos jogos de palavras, trocadilhos. A relação se dá na ilusão da magia da linguagem. No seu encanto cotidiano. A existência concreta, dura, correspondente está em xeque. Nem mesmo a ex-esposa de Theodore — nem o “eu” de Theodore para si. Onde eles estão senão na estória que contam pra si mesmos? Somos essas identidades narradas para nós mesmos, imersos na linguagem. O problema é que todo esse pós-estruturalismo, esse nominalismo relativista “pós-moderno” tem limites… A gente sofre, somatiza. Dói muito. As lágrimas ardem de tão salgadas. Tudo é uma brincadeira de verdade.

O que importa dizer, caro 2017, é que Theodore só supera sua ex-esposa quando percebe a ilusão da brincadeira que é o amor. Quando percebe que repete os erros com Samantha. Quando percebe que o amor é uma suposição: mas uma suposição pragmática. Não existe, mas funciona. Theodore nunca sofreu por ninguém a não ser por ele mesmo. Pela sua própria auto-piedade. Pela mentira, pela magia de suas memórias, pelo “sistema operacional” que sua ex-esposa sempre foi, assim como Samantha. O que quero dizer é que somente a partir da ciência do caráter velado, impossível, inalcançável, miserável (o banquete sem comida), que é o amor, é que se pode amar. Catherine pediu divórcio. Já fora embora. Restaram apenas suas memórias e a doce mentira que Theodore contava para si todos os dias sobre como eram felizes. Só que a mentira era mais “verdadeira” do que a verdadeira Catherine.

Assim, Theodore só conseguiu seguir em frente quando percebera a metáfora do falso-verdadeiro amor por Samantha como analogia do que vivera com Catherine… Theodore envia um e-mail e deseja o melhor para Catherine. Envia amor porque está livre. Mas de si mesmo. Pronto para inventar um novo amor. E O filme termina e fico torcendo para que Theodore finalmente perceba Amy, sua amiga, interpretada por Amy Admas — que faz um personagem com seu mesmo nome. Amy estivera o filme inteiro ao seu lado. É que o amor vela a verdade, esquece a lembrança pela memória do falso. A verdade não vem toda. Nunca. A não ser que se saia da linguagem, 2017. Mas aí já estamos falando de outra coisa, de algo não humano. Divino, talvez?

Te desejo feliz 2018!

29/12

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BLADE RUNNER: A FILOSOFIA DAS LÁGRIMAS NA CHUVA 

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“Eu vi coisas que vocês homens nunca acreditariam. Naves de guerra em chamas na constelação de Orion. Vi raios-C resplandecentes no escuro perto do Portal de Tannhaüser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. (Replicante Roy Batty, personagem de Blade Runner, 1984, dir. Ridley Scott, EUA)

 

Ao contrário do que se pode pensar, um filme de ficção científica não é uma mera fantasia, devaneio pop. Isto mesmo. Não é só um delírio de um futuro distante, que logo ficará datado, fruto da “reprodutibilidade técnica” (Benjamin). Ficção científica trata muito mais de um presente, do que de um futuro. Trata mais de um real atual. As linhas divisórias entre o passado e o futuro, o natural e o artificial, o sonho e a realidade, ficam em xeque por este gênero. Aliás, na verdade, são próprios do cinema e de todas as demais artes serem capazes de nos colocar sempre no estado de dúvida cartesiana, a dúvida sobre o que é a realidade.

Mais que mera imitação da imitação que a natureza faz a partir do mundo ideal (Platão), a arte pode ser uma via de possibilidade de um outro real, ou até mesmo uma via de se falar melhor sobre a nossa realidade do que a Filosofia ou a Ciência. E talvez seja isto que o clássico Blade Runner (1982) e sua continuação recém lançada, Blade Runner 2049 (2017), vem nos trazer: o questionamento sobre a possível dissolução das fronteiras entre o natural e o artificial; o que é ter alma, ser humano; o diagnóstico do “tempo do niilismo” (Benedito Nunes), enquanto decadência do projeto humanista, dominação da tecnologia, crepúsculo do Ocidente, desejo parricida contra Deus; e de uma revolta contra a brevidade da vida.

O que chamo de “Filosofia das Lágrimas da chuva”, portanto, é a tarefa do pensamento sobre essa obra genial de Ridley Scott, adaptação para o cinema da novela de Philip Dick, Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968). Pensar sobre lágrimas em meio de uma chuva é a metáfora do adentrar no universo original de Blade Runner. No seu universo chuvoso, sujo, com carros voadores, orientais ocupando as ruas da Los Angeles do futuro do pretérito anos 80. E tudo isto ao som da trilha conceitual de Vangelis, feita com sintetizadores, romântica, nostálgica, que é quase uma obra a parte do filme.

Um “blade runner” é um caçador de androides. Não de meras máquinas de aço, de funcionamento mecânico, mas, sim, daqueles chamados de “Replicantes”. Aqueles que foram feitos para o trabalho, submissão sexual, e que possuem uma força extraordinária, produto de antropotécnica. Eles foram proibidos de entrar na Terra, já abandonada por uma elite humana que fugiu para outros planetas.

No primeiro filme – e falo aqui somente dele, para preservar de spoliers aqueles que ainda não viram Blade Runner 2049 – o enredo gira em torno da procura de Deckard, um “blade runner”, por 4 “Replicantes” que conseguiram fugir para a Terra. Eles vieram em busca de um encontro com o seu criador, o cientista, Tyrell. E no meio de seu caminho, Deckard conhece Rachel, replicante que pensa ser humana devido ao implante de memórias falsas da falecida sobrinha de Tyrell. Rachel é um importante personagem junto com Deckard. Ela se submete a um “teste de empatia”, para verificação sobre sua humanidade… Rachel talvez possa figurar como símbolo feminino, uma nova natureza humana, talvez de um novo “parque humano” (Sloterdijk), numa era pós-humanista.

Numa narrativa policial, de estética noircyberpunk, Deckard procura saber os motivos deste retorno dos androides para “aposentá-los” – já que não podem ser assassinados, pois só humanos o são. “Replicantes” são invalidados como se fossem uma forma de vida desqualificada, uma espécie de simulacro em forma de homo sacer (Agamben). Em Blade Runner 2049, Deckard retorna, mas agora capturado por uma trama mais complexa, envolvendo um novo caçador de androides, num desenvolvimento do enredo que repete uma das questões que considero as mais fundamentais, repetidas nos dois filmes: O que é ser um “Replicante”?; pergunta importante porque sua resposta também implica em perguntar: O que é ser humano?

Como dizia Heidegger, a arte é fonte de verdade. De uma verdade pronta para ser interpretada, compreendida pelo esforço de perceber o que talvez já saibamos – mesmo antes de seu desvelamento. Portanto, “Blade Runner” é uma dessas obras que são fonte da verdade. Por mais que tenhamos visto coisas extraordinárias –  como o amor por alguém, a alegria de ver um filho nascer, um momento em meio à terrífica natureza –, morrer talvez seja um evento como quando nossas lágrimas, feitas de água, sal, memória e sentimento, se esvaem como vapor ou são absorvidas pela pele, deixando o antigo “mistério do ser”, da natureza (physis), subsistir na pergunta pelo paradeiro de nossas memórias na hora da morte. Enfim, pergunta que revela a angústia pela total consciência de que a vida pós-humanista, não importando se humana ou replicante, um dia se dissipará na natureza, voltando ao estado de não-vivo, ou mesmo de não-existente. Como aquelas lágrimas na chuva…

 

Belém, 18 de outubro de 2017.

 

Ricardo Evandro S. Martins

Professor de Sociologia jurídica na Universidade Federal do Pará

Doutor em Filosofia do Direito

 

“Stalker”: ou sobre o desejo que não sabemos

Na onda dos sci-fi’s que tenho visto nessa semana, como a “bilogia”, “Blade Runner”, revi ontem “Satlker” (1979), do Tarkovski. Que filme maravilhoso. Ele não tem o “timing” dos filmes americanos. Por isso, para quem cresceu vendo Hollywood, como eu, é de se estranhar e pode causar certo cansaço. Mas os diálogos não são sentimentlóides cientificistas como os sci-fi’s do Spielberg, Nolan, etc. — que ainda sim gosto muito. Muito mesmo.

Bem, eu não conhecia Tarkovski e uma vez Marco Antonio Moreira me disse que os filmes do diretor soviético são como uma “missa”. Não me esqueci da metáfora. E então depois pude comprovar esse comentário de Marco quando vi “Solaris”,  no Olímpia, e quando vi “Stalker” — DVD locado na FOX, meu lugar preferido em Belém. É uma missa porque é um ritual. Tarkovski vai te preparando, te iniciando na própria gramática audiovisual dele. E os textos fogem de expliações biologicizantes, naturalistas. Diria que são filmes de ficção científica mais ligados às Humanidades e à poesia, à psicanálise. Mas destaco aqui a questão teológica, muito presente em “Stalker”.

São 3 pessoas, como 3 romeiros numa peregrinação em busca de esperança: um escritor, um cientista e um “stalker”. Eu diria que eles são a própria representação da poesia, da ciência e da ética, respectivamente (poiésis, theoria e práxis). O stalker, o homem da responsabilidade, do dever, do cuidado com a natureza do “lugar”, é uma espécie de transportador, guia, para esse lugar misterioso, que aliens teriam nos deixado (de presente , talvez?). Este lugar é a Zona. Onde o seu desejo mais íntimo é realizado. Mas aí, entram muitas  questões: uma, posta pelo escritor: “eu quero mesmo o que desejo?”; outra, posta pelo cientista, professor: “e se a Zona cair em mãos erradas?”; e a terceira, posta pelo stalker, o guia espiritual: “vocês não tem fé?”.

O filme vai se revelando como um diagnóstico do presente pós-industrial, úmido, enferrujado, alagado, sujo, cheio de limo, e abandonado… Abandonado por Deus. Sim, a questão toda é que a peregrinação se revela como uma procura pela fé perdida pelos homens em meio aos seus fracassos profissionais e amorosos. Tarkovski faz aquilo que o escritor, que representa a poesia, diz: a tecnologia é uma prótese, uma muleta. A humanidade foi mesmo feita para fazer arte. E Tarkovski representa bem o que sobrou da nossa humanidade fazendo com maestria aquilo para qual ela fora feita.images (13)