Vattimo e a pós-verdade

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Ontem vi a entrevista de Leandro Karnal para o “Canal Livre”, da Bandeirantes, falando sobre a tão falada “pós-verdade”. Cada vez mais o tema da “pós-verdade” tem sido tratado na mídia e aqui pelas redes. O tema é realmente muito interessante. Especialmente porque toca numa das questões filosóficas mais fundamentais, que é a da própria “verdade”. Em torno desta questão, temos outras, girando em volta, como a do relativismo, a da que pergunta pelo o que é a realidade, falsidade, etc.

O certo é que se trata de uma questão filosófica muito antiga, que acaba também nos levando para um dos momentos mais importantes do cristianismo. Um momento bem oportuno para o mês que em entramos agora, o mês pascal de abril. Estou me referido ao momento em que Pilatos pergunta para Jesus se ele seria mesmo o Rei dos Judeus. Cristo responde que ele é a verdade, então Pilatos põe uma questão filosófica: “Quid veritas?”. O que é a verdade? (João, 38).

Bem, tendo falado sobre estas coisas, venho dizer que a questão da “Pós-verdade” é um cliché filosófico. Não se pode, de maneira alguma, ser encarada como uma novidade pós-moderna. Contudo, se considerarmos que a questão da “pós-verdade” não é algo simplesmente sobre o que é a verdade e o que não é, mas sim como um fenômeno de uma sociedade industrial, espetacularizada e bombardeada pela imprensa, pela mídia, pela rapidez com o que os temas são tratados, pela confusão sobre o que a política nos oferece, pela opiniões formadas sem reflexão devida ou, pior, quando surgem apenas para se agradar um público específico, e às vezes com o ar especializado, então o tema não pode ser tratado como mais uma querela platônica.

O tema da “pós-verdade” tem que ser pensado desde Marx e o problema da ideologia, bem como com o apoio do que Althusser desenvolvera a partir do estruturalismo — e Zizek, com Lacan, de modo mais atual.

Mas o que venho chamar a atenção é para o livro do Vattimo, chamado de “Adeus à verdade”, publicado no Brasil em 2009, pela Ed. Vozes. Logo de início é possível ver que Vattimo não esquece de falar de Marx, nem de Adorno. Mas, como não poderia deixar de ser, já que o filósofo italiano é da tradição hermenêutica, Vattimo fala do “adeus” que nossos tempos atuais teriam acenado à verdade, a partir do que Heidegger formulou sobre verdade enquanto “desvelamento” (alétheia), como verdade mais original do que a como correspondência (adequatio).

E Vattimo vai mais além. Ele também trata das consequências teológicas do “adeus à verdade” que temos na contemporaneidade, quando aborda o “futuro da religião” desde o nosso “adeus”. O filósofo partiu das bases hermenêutico-filosóficas de Gadamer e de sua interpretação sobre o que é a “verdade retórica”, a verdade que é a “verdade fraca”, a da verossimilhança, a que convence o auditório por meio de premissas aceitas desde um senso comum (Cícero e Vico) — e aqui lembro também da interpretação similar feita por Mootz III, a partir de Perelman.

O livro está sendo estudado por mim, Hiago, Braulio, Vitória Sinimbú. E de início, Vattimo põe a seguinte questão: é fácil condenar a “mentira” do governo Bush sobre as armas químicas no Iraque, usadas como desculpa para a apropriação das refinarias de petróleo, mas e se esta “mentira” fosse usada para se conseguir mais recursos para a luta contra o HIV? Para que nos serviria, então, a “verdade”? Talvez eu volte aqui para trazer o resultado dos nossos estudos. Então, “adeus”! Não, minto, até o próximo post!

https://ricardoevandromartins.wordpress.com/2017/04/03/291/

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Hume e a “falácia naturalista”

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Como um empirista cético, no seu famoso Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais, de 1740, Hume defendia que todas as ideias ou impressões são derivadas das percepções humanas, isto é, derivadas da nossa experiência (empírica). As impressões e também as ideias só são “possíveis” com a condição de ter havido a afecção experiencial anteriormente.

Desse modo, a ideia de causação, isto é, a ideia de que toda causa é seguida por um efeito surge a partir da experiência humana que, ao observar o mundo, percebe que todo acontecimento possui uma causa anterior, assim como todo fato ocorrido causa outro posterior.

Todavia, Hume não se limita a dizer que a ideia de causação surge com a experiência. Por meio da aplicação de seu método, que nos diz para procurar pela impressão (empírica) primeira de cada ideia que aparenta nebulosidade ou contradição, Hume conclui que a ideia de causação é fruto não de uma Lei geral do entendimento, mas sim da “conjunção constante” existente entre causas e efeitos observada pelo sujeito.

Essa observação leva-o a afirmar que, pela constatação frequente que cada efeito sempre possui causa anterior, haveria uma conexão necessária de causalidade. E é pela “imaginação”, pela “fantasia”, que o sujeito é levado a acreditar que um fato pode ser seguido com uma consequência necessária. Esta “fantasia” advém do registro memorial das experiências anteriores de “conjunção constante” entre objetos ou fatos.

Portanto, não há racionalidade nesta inferência. O entendimento não opera nestes casos. Nosso entendimento não pode deduzir uma consequência para uma causa porque nós não fazemos isso pela razão, mas sim pela fantasia do que ocorrerá no momento seguinte a um fato. (HUME, 2009, Livro 1, Parte 3, Seção 7, 1-16).

Entretanto, isto não quer dizer que a Ciência não possa estudar as relações entre causa e efeito. Hume era apenas cético quanto à dedução em abstrato da relação causal. Isto não impedia, conforme Hume, que tal relação fosse conhecida, mas isto exigiria, de outra banda, somente a experiência para concretizar tal estudo.

Foi com esta mesma metodologia e com este mesmo raciocínio sobre a “questão” da causalidade que Hume passou a tratar da “questão” da ação humana e da moralidade. Hume defendia que todas as nossas ações estão sob a denominação da percepção empírica. Até o ato de julgar se um comportamento foi moralmente “correto”, ou não, advém de uma percepção anterior.

Assim, conclui-se que julgar se algo ou se uma ação é moralmente boa ou ruim corresponde a uma atitude proveniente das nossas percepções. Hume seguia a “divisão” clássica da Filosofia entre especulação (teoria) e prática. Por esta divisão, a moral está inclusa na dimensão prática da Filosofia. Ela está mais relacionada com as nossas paixões e com as nossas ações.

Segundo Hume, a moral não pode ser derivada da razão e nem a razão sozinha pode influenciar nas nossas paixões, pois é a moral que influi nas nossas ações e em nossos afetos, e não a especulação racional. O fundamento desta posição está no fato de que Hume não endossava a ideia de que o entendimento teria um papel ativo, de espontaneidade. Pelo contrário, a Filosofia humeana compreendia que o entendimento é inativo.

Por isso, enquanto “Princípio inativo”, a razão do entendimento jamais poderia ser um “Princípio” do qual a moral, que é ativa em nossas ações, pudesse ser deduzida. Sendo assim, as nossas ações não podem sofrer o julgamento típico da razão. As nossas ações não podem ser julgadas como “verdadeiras” ou “falsas”, pois este tipo de julgamento, se algo incorre em veracidade ou em falsidade, é próprio da razão, que, lembramos, é “inativa”.

Para Hume, as nossas ações podem ser consideradas como “louváveis” ou como “condenáveis”, e nunca como “racionais” ou “irracionais”. Destacamos, contudo, que a preocupação de Hume concentrava-se na questão de saber o motivo pelo qual certas condutas são moralmente condenáveis e outras não.

Um exemplo: do incesto entre os animais não pode ser considerado algo condenável com justificativa de que seriam estes semoventes carentes de uma razão superior como a que nós, seres humanos, possuímos. Devemos lembrar que, para Hume, a razão não é capaz de produzir o julgamento de que algo é “louvável” ou “condenável”. A razão até pode “descobrir” o vício ou a virtude de uma ação, mas nunca “produzir” censura ou elogio a um ato. Os deveres de obrigação moral não estão no campo da racionalidade (da especulação), mas sim no próprio campo prático da moralidade.

Assim, Hume defendia que uma proibição moral para uma determinada ação surge a partir dos nossos sentimentos que experimentamos, ou melhor, das sensações e sentimentos que temos ao agir. Logo, quando declaramos que uma ação está carregada de vício, por exemplo, isto quer dizer que nós experimentamos um sentimento ou uma sensação de “censura” quando contemplamos tal ato, e não porque possuíamos um raciocínio especulativo condenador “superior”. (HUME, 2009, Livro 3, Parte 1, Seção 1-2).

Pela Filosofia de Hume, em um possível caso de incesto entre seres humanos a relação prática de suas condutas não se diferiria da que ocorre entre os animais, pois, ontologicamente, não há diferença, também, na relação causal entre o a morte de uma árvore pelo seu fruto que cresceu em sua mesma região e o homicídio de um pai causado pelo seu próprio filho. Ambos os acontecimentos e condutas possuem a mesma relação causal. A diferença estaria, portanto, na reprovabilidade do incesto ou do parricídio por um “dever” moral surgido do sentimento censurador de tais sujeitos a partir de suas “sensibilidades”.

Por fim, isso mostra como em Hume aquilo “que deve ser” não pode ser deduzido daquilo “que é”. Pois o “que deve ser” não interfere no mundo ontológico. Trata-se apenas de noções morais surgidas a partir do incômodo (ou satisfação) sentimental dos seres humanos para com determinadas condutas.