VIDRO: REVOLUÇÃO, PÓS-HUMANISMO E A DEMOCRACIA LIBERAL

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Aviso 1: Tem muito spoiler.

Aviso 2: Essas leituras partem de generalizações dos conceitos de Zizek, Foucault e Agamben. No caso de Zizek, mais tentei emular seu estilo de interpretação, do que usar algum conceito original seu. Enfim, esse texto é só um ensaio sem maiores pretensões, e jamais com pretensão de fazer crítica de cinema ao filme. Em verdade, são mais anotações mentais que queria compartilhar aqui.

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A trilogia de Shyamalan fecha ao menos uma saga com o filme “Vidro” (2019). E curiosa foi a minha surpresa ao fim de “Fragmentado” (2016), quando, depois de assistir um filme que lida com temas pesadíssimos, como abuso infantil e suas consequências psicossomáticas, vi sua conexão com um outro filme, feito há mais de 18 anos, que assisti despretensiosamente, numa época em que ainda não existia a Marvel Studios.

O filme em conexão é “Corpo fechado” (2000). Um filme estranho. Cínico e sombrio demais para ser um filme de super-herói comum, e fantasioso demais para ser de terror, suspense, etc. Com “Vidro”, tive a mesma curiosa sensação do final de “Fragmentado”, pois rolou uma reviravolta que pareceu tosca de início. No final de “Vidro”, surge uma sociedade secreta de propósitos ocultos. Pareceu um “deus ex machina” mal colocado e desnecessário. A mitologia do filme já se bastava. O desfecho trágico de “Vidro” era justo com o cinismo sombrio-fantasioso de “Corpo fechado” e com a violência inumana de “Fragmentado”… Mas esse recurso narrativo de uma sociedade secreta, que surge nos 20 últimos minutos da película, como uma milenar organização em defesa da humanidade contra seu possível extermínio por sujeitos com super-poderes, que rivalizam entre si, pode por outro lado abrir espaço para um modo de interpretação específica do filme e mais duas interpretações, através de conceitos de filosofia contemporânea.

Quanto ao tipo de leitura a que me referi, falo do modo materialista (Marx) de ler um filme, como faz Zizek; e quanto aos dois conceitos filosóficos, trago aqui o famoso conceito de biopolítica, de Foucault; e de dispositivo enquanto máquina antropotécnica, de Agamben. Assim, sendo direto, vamos às 3 interpretações:

1) Começando com uma leitura materialista, que dedico aos estilo de Zizek em interpretar filmes, “Vidro” pode ser lido como a representação de como há uma resistência da social-democracia capitalista contra os “radicais livres”, quem podem surgir da esquerda comunista e anárquica ou mesmo da direita fascista e moralista. Evitar a destruição do sistema “pacífico”, confortável, enebriado pela ideologia capitalista dominante e pelo fetichismo da mercadoria, seria então evitar o surgimento dos revolucionários cheios de ódio, revoltados por causa da luta de classes, da violência a que foram submetidos — como é o caso do personagem de várias personalidades, em que, dentre tantas, tem a “Besta” como protetora da “horda”, mas que pode ser interpretada também como aquela personalidade que, dentre muitos tipos oprimidos, é o mais radical, capaz de defender a classe oprimida, a sua “horda”, da ameaça mortal da exploração pelo sistema capitalista. Ainda nesta leitura zizekiana, o persoangem do “Vigilante” poderia ser, então, um radical fascista, contra quem o consenso democrático-liberal também evita — apesar das afinidades, pois facilmente podem figurar no mesmo lado, o “do bem”. O Vigilante é aquele que dá “passos certos em direção errada” — expressão famosa de Zizek, que aparece em “Em defesa das causas perdidas” (2008). O “Vigilante” representa o moralismo, a rigidez de caráter, capaz de se sacrificar em nome da conservação dos limites rígidos entre bandidos e mocinhos, mesmo sendo perseguido pela polícia. Ele é amado pelos jornais e pelo povo massacrado por uma ameaça constante, o que o faz querer justiça ou vingança, pois ele não as diferencia;

2) Já por uma leitura “foucaultiana”, pode-se falar logo da biopolítica da clínica coordenada pela médica que quer estudar o sujeito de múltiplas personalidades, que se diz capaz de virar uma “Besta”, estudar o “Vigilante”, que acha que tem poderes de intuição aguçada e força sobre-humana, além do “Vidro”, o vilão frágil, mas superinteligente. Aqui, a médica psiquiátrica, que ao final se revela participante daquela sociedade secreta “humanista”, tenta convence-los que não há superpoderes ou mistério alguns: há apenas megalomania, personalidades com sérios traumas e seus mecanismo de defesa. Ela os rotula, os denomina, controla seus corpos, docilizando-os por seus pontos fracos, denominando suas loucuras;

3) Enfim, quanto à leitura “agambeniana” — a que acho mais interessante –, invoco aqui o livro “O aberto”, publicado em 2002, pelo filósofo italiano. Neste livro, Agamben parte do método genealógico (Nietzsche) para remontar os momentos histórico-filosóficos de desligamento do conceito de “homem” do “animal”. Além disto, Agamben usa a força “destruidora” de Heidegger em “Carta sobre o humanismo” (1946) contra a tradição humanista, em que alerta sobre como o humanismo filosófico teria se tornado uma técnica de definição do que é humano e do que não o é. Assim, por esta leitura, o filme “Vidro” nos revela de modo metafórico sobre como há dispositivos fortes o bastante para nos colocar entre animais e deuses, entre a vilania dos ressentidos — em que a fragilidade vitral é justamente a sua força, advinda da sua personalidade ressentida — e a força bruta e transvalorada, amoral, do Homem-animal, enfim, entre ban(d)idos e cidadãos. A sociedade secreta que age ocultamente pelos séculos é o dispositivo, a economia secularizada, que administra a vida humana, produzindo-a e a descartando, ora como animal (Besta), ora como sacro-santo (Vigilante), em que sua morte não só não é crime, como também não se trata de sacrifício, pois já são sacros. Não são humanos, portanto. Então, podem ser eliminados da comunidade humana a fim de proteger nossa existência. Uma existência condicionada pela máquina antropotécnica — hoje, na sua versão neoliberal — de raízes teológico-políticas.

Afinal, o filme talvez seja sobre a batalha entre infra-humanos, bestias ou ressentidos, frágeis como vidro, mas capazes de reatividade; humanos, organizados na sua sociedade de mediocridade coletiva, também ressentida, que é administradora de políticas de vida e de morte; e os sobre-humanos, com o seu senso de dever arbitrário, narcisistas como deuses, crentes em uma finalidade ou causa que transcende os humanos e a morte.

Ricardo Evandro S. Martins
04/02/19

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