Martins

 

Ando cansado de estudar para escrever a minha tese em casa. Minha familia é muito agitada. Uma vez até perguntei pro meu pai, se os Martins tinham sangue italiano, porque não é possível, olha — okay, está na hora de eu sair de casa, eu sei…

Fui dar uma volta. Acertei a barba. Chovia muito e não quis voltar pra casa — tenho pavor da tarde chuvosa em Belém. Não fico em casa por nada nestas condições. Questão de sobrevivência. Autoconservação. Então resolvi dar uma passada na Fox, como sempre.

Trouxe comigo meu livro do Korzeniowski, sobre Betti e sua “ermeneutica”, tema do último capítulo da minha tese — agora vai.

Sentadinho aqui, bem ao meu lado, tinha um senhor muito simpático. Vestia um boné curioso, cheio de insígnias do partido comunista, da União Soviética — imagino a perseguição que ele deve sofrer nas ruas, em tempo de II Guerra Fria brasileira.

Ele estava lendo um livro grosso, de edição bem bonita. Não me contive. “Que livro é esse aí?”. “Ah, é o livro que inspirou o filme “A viagem” (Atlas cloud)”. “Sim, sim. Acho que sei qual é. Eu adorei o filme. Foi feito pelas irmãs que dirigiram Matrix”.

Eu sempre amei esse filme. No Brasil, ele ganhou um titulo espírita. Sem muito spoilers, é bem compreensível esta decisão da distribuidora brasileira porque a estória alude à novela homônima, da Globo, muito famosa.

“Será que tem outra unidade pra mim? É incrível como levamos muitas vidas para tomar uma atitude diferente. Para nos livrarmos dos nossos perseguidores. E para entendermos que, não, não existe este papo ‘ordem natural’ alguma sobre quem nós somos”. Ele concordou. Disse que não tinha visto o filme ainda. Preferia ler a estória antes…

Enquanto ele falava, ia lembrando do meu falecido avó e de seu irmão. Ambos comunistas, perseguidos pela ditadura. Lembrei do meu pai também, gripado em casa, e como ele teve muito jogo de cintura naquele tempo. Meu pai trabalhava na atual “Casa das 11 janelas”/Forte do Castelo, como tenente do Exercito Brasileiro. O complexo era um presídio e quartel. O jogo de cintura que ele teve se deu porque na mesma época que trabalhava lá como oficial, o tio dele, meu tio-avô Oswaldo Evandro Martins, fora preso em Fortaleza e transferido pra Belém — de pijama mesmo, foi preso de madrugada, enquanto ele lia poemas do Drummond. Este meu tio-avô era do Pecebão e tinha morado em Moscou. Enfim, meu pai estava enrascado.

Bem, a memória veio em milésimos de segundos. Estive ausente por todo este tempo. Mas voltei pra conversa. “Tenho que ir. A chuva acabou”. “Está bem, muito prazer”. “Prazer é meu, eu me chamo Martins”… Fiquei rindo sozinho por uns segundos. Ele ficou meio constrangido. “Que foi?”. “Nada! É que eu também me chamo Martins, Ricardo Martins”. Ele riu alto. “Então deves ser gente boa!”. “Obrigado! Talvez eu seja!”.

Espero que não leve muito tempo… Muitas vidas…. À custo de muitas vidas…

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