SOBRE O PORQUÊ QUE GOSTAMOS DE FILMES, JOGOS E BRINCADEIRAS: uma resposta ao amigo David Carneiro, sobre o nosso interesse por narrativas

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O jogo é o lugar e é o tempo em que podemos criar uma realidade em que somos outra pessoa, mas sem estarmos mentindo ou fingindo. A brincadeira, o jogo, não comporta fingimento. Somos e não somos quem figuramos ser. Deixamos de lado a verdade correspondencial, que tem correspondentes na realidade, para que, por um tempo, sejamos alguém diferente, mas sem deixarmos para sempre quem entendemos como “eu”.

Brincar, atuar, jogar, encenar, tocar um instrumento e botar um filme pra rodar, possuem o mesmo verbo em inglês: to play. E os saxões fazem certo: são a mesma coisa. E Gadamer também está certo: não são ações da mentira, do falso, assim como o mito não é mentiroso. Pois por mais que não falem sobre algo que exista realmente, estas estórias míticas são produtoras da verdade sobre quem fomos ou somos. Mas aqui falo da verdade que a ciência e que a filosofia mais analítica e epistemológica nao dão conta: a da verdade da arte, que nos diz muito mais sobre quem somos do que uma explicação neuro-endócrina-psico-comportamental poderia fazer.

A arte, o jogo e a brincadeira, que sempre nos colocam em narrativas diferentes das quais costumamos constituir, ouvir, ver e contar, podem nos dizer verdades inimagináveis e muito mais funcionais e impactantes à es/história de nossas vidas do que qualquer análise racional ou médico-científica sobre quem fomos, somos e quem queremos ser.

Pois, afinal, isso que chamamos de “Eu” é uma dinâmica dialética entre o remendo de estórias que nos contaram sobre quem nós somos (geralmente as narrativas de nossos pais em comparação aos nossos irmãos ou sobre o quão fomos desejados e o quanto representamos pra eles), junto com muitas estórias que ouvimos, lemos e assistimos (como quando imitamos os comportamentos de nossos heróis e evitamos agir como os vilões), versus a sempre possível, viável, chance de contarmos outras estórias pra nós mesmos, mudando o rumo de nossas biografias — isto é o que Ricoeur falava sobre o nosso Eu idem e o Eu ipse.

Portanto, a nossa identidade narrativa é constituída por quem nos tem e pelo o que nós temos sobre quem somos versus a abertura de recontarmos quem somos para o futuro. E jogar e ver uma estória no cinema é recriar aquela dinâmica dialética entre esses nossos “Eus”, ato que não apenas nos entretêm
e nos faz rir, ou nos dá catarse, pois é também uma experiência de e da verdade. E da verdade mais originária e autêntica do que a da verdade que se encontra quando se adéqua o que se diz com o que acontece na realidade concreta. É a verdade que se desvela como alétheia, e não como adequatio. Uma verdade que simplesmente se dá sem percebermos, sem a ilusão de nosso controle e que até pode ser uma verdade já sabida, mas ainda não dita, só esperando para se desvelar.

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Reflexões sobre estética e hermenêutica

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1. A Estética (moderna) coloca a questão do Belo e de sua objetividade/universalidade como algo inscrito no campo do “como se” (“als ob”). O juízo estético de gosto escaparia, assim, do solipsismo porque teria sua validade fundada na universalidade do prazer compartilhado com outras pessoas capazes de julgar o que é belo e o que não é.

2. Então, meu ponto, aqui, é perguntar como a universalidade deste tipo de juízo é possível? Parece que a questão do “como se” desonera a investigação sobre o que seria mesmo aquilo que é belo. O juízo estético deve ser lidado como um tipo de julgamento em que sua validade lógica, a sua universalidade, ou, ainda, a sua objetividade, como exigências pressupostas, “como se” a subjetividade, os preconceitos, o engajamento e o interesse do sujeito judicante, enquanto unidade sintética da apercepção, não estivessem em jogo.

3. O Belo então deixa de ser uma questão central. A provocação sobre a verdade da arte me interessa muito mais — saber se a arte pode ser encarada para além do que a Estética (moderna) reduziu, como mero deleite estético subjetivo (empirismo) ou como ideal de formação (romantismo), pois esta questão retoma a problemática platônica sobre a relação entre beleza, moralidade/política e verdade. Mas se recolocarmos o Belo na centralidade da investigação, eu provocaria com o seguinte: Afinal, o que é a complacência da beleza sobre a qual Kant fala?

4. Seguindo Jesus Conill, com a sua interpretação ousada sobre o desenvolvimento da “destruição da estética” de Heidegger por Gadamer, atrevo-me a dizer que o Belo, já que a questão do gosto que levanto nesta postagem pode ser respondida pela CFJ de Kant, seria algo muito mais ligado ao prazer compartilhado dentro de uma comunidade, de um senso de beleza comum, do que uma questão metafísica realista, em que a Beleza é um Bem, um dado ou um núcleo eterno e imutável a ser encontrado por investigação.

5. É importante que eu destaque que esta leitura de Conill sobre Gadamer é singular porque salva Kant das críticas de Gadamer, pois teria o ilustre aluno de Heidegger reduzido a estética kantiana a um modo de encarar a arte como mais um capítulo da “história da perspectiva sobre a arte” como mera imitação, distante da Verdade, e/ou como uma solipsista perspectiva que vê o Belo como mera questão de gosto. Conill parece corrigir este ataque ao Kant por Gadamer e também parece contribuir para a questão, mostrando-nos que a compreensão de Belo, mesmo e já com Kant, dá-se pela devida compreensão de que se trata de algo ligado ao senso comum sobre a beleza, compartilhado pela comunidade em que se vive, em que se “joga” (Wittgenstein).

6. Só ressalvo que tal leitura de Conill sobre Gadamer, que pode ser resumida como uma crítica e um avanço a partir do próprio Gadamer, especialmente desde a primeira parte do “Verdade e Método I”, parece não enfrentar o conceito de “bild” e a possível metafísica realista que pode ser extraída na terceira parte do próprio “VeM I”. Conill está lidando aqui com uma compreensão retórica não só do potencial “veritativo” da arte, mas também com uma compreensão retórica sobre o belo e, consequentemente, sobre a sua objetividade, vista, aqui, como algo ligado à comunidade e à relatividade histórico-cultural que ela comportaria.