“Her” e a ilusão do amor

Não é um texto melancólico. É que estou há anos querendo escrever um texto sobre “Her”. E resolvi escrever pra ti. Eu vi esse filme no cinema em 2013. Mas acho que só agora é que pude reunir uma ideia um pouco mais “fechada” sobre a experiência com o filme de Jonze. Quis escapar da crítica à efemeridade das relações, do risco da solidão tecnológica, da inteligência artificial… E tentando resistir ao sono interminável que você, 2017, me deu e à preguiça de escrever um texto mais acadêmico, vou tentar ser o mais direto possível. Prometo.

Retomando rapidamente a estória, o filme gira em torno de Theodore, interpretado pelo melancólico J. Phoenix. Ele tenta superar o fim do seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Eles terminaram porque ele teria deixado a sua esposa “só” no relacionamento. Nesse processo todo ele compra uma sistema operacional de inteligência artificial, a Samantha, que só aparece como voz. A rouca e sedutora voz da S. Johansson… Bem, é claro que esse relacionamento não poderia dar certo. E não porque Samantha seria “artificial”, “robótica”. É claro que estava fadado ao fracasso não só pela desumanidade de Samantha, pois não tem um corpo, mas também por causa das muitas potencialidades igualmente problemáticas, já que são sobre-humanas. Samantha podia falar com milhares de pessoas interessantes ao mesmo tempo, inclusive com outros sistemas operacionais, enquanto Theodore não passava de um sujeito classe média, escritor de cartas e bilhetes por encomenda.

O fracasso do casal Theodore-Samantha é o fracasso de qualquer casal: “Her” é uma metáfora sobre como nos relacionamos com a nossa fantasia do outro, com a ilusão que o outro pode nos oferecer. Com o que supomos que ele pode nos completar, como as fantasias da segurança afetiva, do acolhimento, da vida pequena burguesa num apartamento acolhedor, vendo filme francês antigo, fantasias com a segurança financeira, viagens, com uma família acolhedora,
presente e amorosa (que você talvez não teve), com os risos, cartas de amor escritas com sinceridade…

Samantha se desinteressa por Theodore. E ele é entediante mesmo. Melancólico demais, solitário demais. Afinal, é só mais uma pessoa no mundo. Só que a gente precisa sempre lembrar que Samantha não existe! Theodore namora consigo mesmo o filme inteiro. Mesmo na cena genial do sexo “a três”, não tem “três”! Contudo, quero ousar dizer aqui que também não tem ninguém naquele quarto. São dois corpos e muita narrativa. Muitos jogos de palavras, trocadilhos. A relação se dá na ilusão da magia da linguagem. No seu encanto cotidiano. A existência concreta, dura, correspondente está em xeque. Nem mesmo a ex-esposa de Theodore — nem o “eu” de Theodore para si. Onde eles estão senão na estória que contam pra si mesmos? Somos essas identidades narradas para nós mesmos, imersos na linguagem. O problema é que todo esse pós-estruturalismo, esse nominalismo relativista “pós-moderno” tem limites… A gente sofre, somatiza. Dói muito. As lágrimas ardem de tão salgadas. Tudo é uma brincadeira de verdade.

O que importa dizer, caro 2017, é que Theodore só supera sua ex-esposa quando percebe a ilusão da brincadeira que é o amor. Quando percebe que repete os erros com Samantha. Quando percebe que o amor é uma suposição: mas uma suposição pragmática. Não existe, mas funciona. Theodore nunca sofreu por ninguém a não ser por ele mesmo. Pela sua própria auto-piedade. Pela mentira, pela magia de suas memórias, pelo “sistema operacional” que sua ex-esposa sempre foi, assim como Samantha. O que quero dizer é que somente a partir da ciência do caráter velado, impossível, inalcançável, miserável (o banquete sem comida), que é o amor, é que se pode amar. Catherine pediu divórcio. Já fora embora. Restaram apenas suas memórias e a doce mentira que Theodore contava para si todos os dias sobre como eram felizes. Só que a mentira era mais “verdadeira” do que a verdadeira Catherine.

Assim, Theodore só conseguiu seguir em frente quando percebera a metáfora do falso-verdadeiro amor por Samantha como analogia do que vivera com Catherine… Theodore envia um e-mail e deseja o melhor para Catherine. Envia amor porque está livre. Mas de si mesmo. Pronto para inventar um novo amor. E O filme termina e fico torcendo para que Theodore finalmente perceba Amy, sua amiga, interpretada por Amy Admas — que faz um personagem com seu mesmo nome. Amy estivera o filme inteiro ao seu lado. É que o amor vela a verdade, esquece a lembrança pela memória do falso. A verdade não vem toda. Nunca. A não ser que se saia da linguagem, 2017. Mas aí já estamos falando de outra coisa, de algo não humano. Divino, talvez?

Te desejo feliz 2018!

29/12

Ricardo.images (4)

 

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