A COMUNIDADE E A ÉTICA QUEM VEM PELA FORMA-DE-VIDA

Agamben

 

Para Agamben, o caminho é superar o isolamento realizado da vida em relação a uma forma de se viver. Superar este isolamento, esta cisão entre vida e as suas formas, é possibilitar aquilo que Agamben em Meios sem fins (Mezzi senza fine) (1996) chamou de “vida da potência”. Mas a viabilidade desta “vida da potência” só pode se dar pelo o que Agamben chamou de “pensamento”. O pensamento que possibilita a vida em potência é “(…) o nexo que constitui as formas de vida em um contexto inseparável, em forma-de-vida. Com isso não entendemos a atividade individual de um órgão ou de uma faculdade psíquica, mas uma experiência, um experimentum que tem por objeto o caráter potencial da vida e da inteligência humanas (…)”. (AGAMBEN, 2015, p. 16). Desse jeito, como “potência social” ou experiência comunitária do pensamento em comum, Agamben defende que o intelecto não é uma forma de vida articulada com outras formas de vida. O intelecto é “a potência unitária que constitui em forma-de-vida as múltiplas formas de vida”. (AGAMBEN, 2015, p. 20). Agora, então, enquanto condição de possibilidade para que as diversas formas de vida sejam formas-de-vida, escrito agora em justaposição, “(…) esse pensamento será o conceito-guia e o centro unitário da política vem (…)”. (AGAMBEN, 2015, p. 20).

Considerando, portanto, a possibilidade da vida anexada a uma forma e por isto descapturada dos dispositivos maquinais, Agamben questiona-se se é possível pensar numa forma-de-vida semelhante àquela vida do condenado liberto na Colônia penal (1019) de Kafka. Ele questiona se seria possível a vida sobrevivente à destruição da máquina mortífera que iria executá-la, como esperançosamente fala Agamben em A comunidade que vem (La comunità che viene) (1990). Sobre este tempo, de liberdade diante da máquina, Agamben diz que seria o tempo em que se deixaria para trás o mundo da culpa e da justiça. Este seria o tempo da aurora que se segue após o Juízo final. Mas resta saber também: Que vida seria esta, pós-juízos final? Sobre isto, Agamben diz: “Mas a vida que começa sobre a terra depois do último dia é simplesmente a vida humana”. (AGAMBEN, 2013, p. 15).

Neste mesmo sentido, Agamben finaliza a Altíssima pobreza (2011), falando sobre o desafio de se conseguir encontrar um ethos que quebre o dualismo entre liturgia e vida. (AGAMBEN, 2014, p. 147).  Talvez, este novo ethos seja uma possibilidade de conciliação entre falar e agir, enquanto uma espécie de jogo. Assim, talvez seria possível encontrar paralelos entre a noção de Agamben e de Wittgenstein sobre o que seria uma forma e vida (Lebensform). [1] Agamben mesmo já indicara esta relação em Altíssima pobreza (2011), quando lembra que Wittgenstein colocara em questão a representação corrente, própria da ética – e eu diria também que seria própria do direito e de sua interpretação – sobre o problema da aplicação de uma regra a um caso particular. Agamben lembra de Wittgenstein, especialmente da sua fase tardia, quando propôs um novo modo de se entender a linguagem, como um modo de jogo fundamentado em regras constitutivas, que não determinam um ato, mas que são, estas mesmas regras, um ato, um estado de coisas. (AGAMBEN, 2014, p. 78).

[1] Para Wittgenstein tardio, a linguagem é uma prática, uma atividade que pode formar um jogo de expressões, de trejeitos, olhares, metáforas e signos. Assim, podemos, então, afirmar que a linguagem faz parte de um agir que se dá por jogos, baseados em um jogar comunitário, compartilhado, ou mesmo de um hábito enquanto modo de se viver, de se levar a vida. Sobre isto, Wittgenstein diz no §23, que “[o] termo ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar da linguagem é parte de uma atividade ou de uma forma de vida” (WITTGENSTEIN, 1984, p. 18).

 

REFERÊNCIAS

 

AGAMBEN, Giorgio. Altíssima pobreza. São Paulo: Boitempo, 2014.

______. Meios sem fim. São Paulo: Autêntica, 2015.

______. A comunidade que vem. São Paulo: Autêntica, 2013.

 

WITTGESNTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. São Paulo: Abril Cultural, 1984.

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