BLADE RUNNER: A FILOSOFIA DAS LÁGRIMAS NA CHUVA 

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“Eu vi coisas que vocês homens nunca acreditariam. Naves de guerra em chamas na constelação de Orion. Vi raios-C resplandecentes no escuro perto do Portal de Tannhaüser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. (Replicante Roy Batty, personagem de Blade Runner, 1984, dir. Ridley Scott, EUA)

 

Ao contrário do que se pode pensar, um filme de ficção científica não é uma mera fantasia, devaneio pop. Isto mesmo. Não é só um delírio de um futuro distante, que logo ficará datado, fruto da “reprodutibilidade técnica” (Benjamin). Ficção científica trata muito mais de um presente, do que de um futuro. Trata mais de um real atual. As linhas divisórias entre o passado e o futuro, o natural e o artificial, o sonho e a realidade, ficam em xeque por este gênero. Aliás, na verdade, são próprios do cinema e de todas as demais artes serem capazes de nos colocar sempre no estado de dúvida cartesiana, a dúvida sobre o que é a realidade.

Mais que mera imitação da imitação que a natureza faz a partir do mundo ideal (Platão), a arte pode ser uma via de possibilidade de um outro real, ou até mesmo uma via de se falar melhor sobre a nossa realidade do que a Filosofia ou a Ciência. E talvez seja isto que o clássico Blade Runner (1982) e sua continuação recém lançada, Blade Runner 2049 (2017), vem nos trazer: o questionamento sobre a possível dissolução das fronteiras entre o natural e o artificial; o que é ter alma, ser humano; o diagnóstico do “tempo do niilismo” (Benedito Nunes), enquanto decadência do projeto humanista, dominação da tecnologia, crepúsculo do Ocidente, desejo parricida contra Deus; e de uma revolta contra a brevidade da vida.

O que chamo de “Filosofia das Lágrimas da chuva”, portanto, é a tarefa do pensamento sobre essa obra genial de Ridley Scott, adaptação para o cinema da novela de Philip Dick, Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968). Pensar sobre lágrimas em meio de uma chuva é a metáfora do adentrar no universo original de Blade Runner. No seu universo chuvoso, sujo, com carros voadores, orientais ocupando as ruas da Los Angeles do futuro do pretérito anos 80. E tudo isto ao som da trilha conceitual de Vangelis, feita com sintetizadores, romântica, nostálgica, que é quase uma obra a parte do filme.

Um “blade runner” é um caçador de androides. Não de meras máquinas de aço, de funcionamento mecânico, mas, sim, daqueles chamados de “Replicantes”. Aqueles que foram feitos para o trabalho, submissão sexual, e que possuem uma força extraordinária, produto de antropotécnica. Eles foram proibidos de entrar na Terra, já abandonada por uma elite humana que fugiu para outros planetas.

No primeiro filme – e falo aqui somente dele, para preservar de spoliers aqueles que ainda não viram Blade Runner 2049 – o enredo gira em torno da procura de Deckard, um “blade runner”, por 4 “Replicantes” que conseguiram fugir para a Terra. Eles vieram em busca de um encontro com o seu criador, o cientista, Tyrell. E no meio de seu caminho, Deckard conhece Rachel, replicante que pensa ser humana devido ao implante de memórias falsas da falecida sobrinha de Tyrell. Rachel é um importante personagem junto com Deckard. Ela se submete a um “teste de empatia”, para verificação sobre sua humanidade… Rachel talvez possa figurar como símbolo feminino, uma nova natureza humana, talvez de um novo “parque humano” (Sloterdijk), numa era pós-humanista.

Numa narrativa policial, de estética noircyberpunk, Deckard procura saber os motivos deste retorno dos androides para “aposentá-los” – já que não podem ser assassinados, pois só humanos o são. “Replicantes” são invalidados como se fossem uma forma de vida desqualificada, uma espécie de simulacro em forma de homo sacer (Agamben). Em Blade Runner 2049, Deckard retorna, mas agora capturado por uma trama mais complexa, envolvendo um novo caçador de androides, num desenvolvimento do enredo que repete uma das questões que considero as mais fundamentais, repetidas nos dois filmes: O que é ser um “Replicante”?; pergunta importante porque sua resposta também implica em perguntar: O que é ser humano?

Como dizia Heidegger, a arte é fonte de verdade. De uma verdade pronta para ser interpretada, compreendida pelo esforço de perceber o que talvez já saibamos – mesmo antes de seu desvelamento. Portanto, “Blade Runner” é uma dessas obras que são fonte da verdade. Por mais que tenhamos visto coisas extraordinárias –  como o amor por alguém, a alegria de ver um filho nascer, um momento em meio à terrífica natureza –, morrer talvez seja um evento como quando nossas lágrimas, feitas de água, sal, memória e sentimento, se esvaem como vapor ou são absorvidas pela pele, deixando o antigo “mistério do ser”, da natureza (physis), subsistir na pergunta pelo paradeiro de nossas memórias na hora da morte. Enfim, pergunta que revela a angústia pela total consciência de que a vida pós-humanista, não importando se humana ou replicante, um dia se dissipará na natureza, voltando ao estado de não-vivo, ou mesmo de não-existente. Como aquelas lágrimas na chuva…

 

Belém, 18 de outubro de 2017.

 

Ricardo Evandro S. Martins

Professor de Sociologia jurídica na Universidade Federal do Pará

Doutor em Filosofia do Direito

 

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