“Stalker”: ou sobre o desejo que não sabemos

Na onda dos sci-fi’s que tenho visto nessa semana, como a “bilogia”, “Blade Runner”, revi ontem “Satlker” (1979), do Tarkovski. Que filme maravilhoso. Ele não tem o “timing” dos filmes americanos. Por isso, para quem cresceu vendo Hollywood, como eu, é de se estranhar e pode causar certo cansaço. Mas os diálogos não são sentimentlóides cientificistas como os sci-fi’s do Spielberg, Nolan, etc. — que ainda sim gosto muito. Muito mesmo.

Bem, eu não conhecia Tarkovski e uma vez Marco Antonio Moreira me disse que os filmes do diretor soviético são como uma “missa”. Não me esqueci da metáfora. E então depois pude comprovar esse comentário de Marco quando vi “Solaris”,  no Olímpia, e quando vi “Stalker” — DVD locado na FOX, meu lugar preferido em Belém. É uma missa porque é um ritual. Tarkovski vai te preparando, te iniciando na própria gramática audiovisual dele. E os textos fogem de expliações biologicizantes, naturalistas. Diria que são filmes de ficção científica mais ligados às Humanidades e à poesia, à psicanálise. Mas destaco aqui a questão teológica, muito presente em “Stalker”.

São 3 pessoas, como 3 romeiros numa peregrinação em busca de esperança: um escritor, um cientista e um “stalker”. Eu diria que eles são a própria representação da poesia, da ciência e da ética, respectivamente (poiésis, theoria e práxis). O stalker, o homem da responsabilidade, do dever, do cuidado com a natureza do “lugar”, é uma espécie de transportador, guia, para esse lugar misterioso, que aliens teriam nos deixado (de presente , talvez?). Este lugar é a Zona. Onde o seu desejo mais íntimo é realizado. Mas aí, entram muitas  questões: uma, posta pelo escritor: “eu quero mesmo o que desejo?”; outra, posta pelo cientista, professor: “e se a Zona cair em mãos erradas?”; e a terceira, posta pelo stalker, o guia espiritual: “vocês não tem fé?”.

O filme vai se revelando como um diagnóstico do presente pós-industrial, úmido, enferrujado, alagado, sujo, cheio de limo, e abandonado… Abandonado por Deus. Sim, a questão toda é que a peregrinação se revela como uma procura pela fé perdida pelos homens em meio aos seus fracassos profissionais e amorosos. Tarkovski faz aquilo que o escritor, que representa a poesia, diz: a tecnologia é uma prótese, uma muleta. A humanidade foi mesmo feita para fazer arte. E Tarkovski representa bem o que sobrou da nossa humanidade fazendo com maestria aquilo para qual ela fora feita.images (13)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s