ALICE, PETER E O TEMPO

Neste domingo fui assistir “Alice Através do Espelho” (2016) no cinema. Não estava bem certo se queria assisti-lo. Já tinha assistido o filme anterior. E tinha achado o modo como a estória foi contada um pouco confuso. Mas já adianto que não saí frustrado desta vez. O novo filme é excelente. Chega a ser melhor porque tem uma narrativa mais simples. O primeiro filme também é excelente, mas, como disse, peca por ser um pouco confuso. Não fica muito clara a relação entre os personagens, a história de vida deles, etc. E este último, sobre o segundo livro de Carrol, consegue desenrolar este problema.

Eu realmente sou fã de Lewis Carrol, autor de “Alice no País das Maravilhas” (1865). Aliás, não apenas dele. Sou um grande admirador de J. M Barrie, autor de “Peter Pan” (1902). Carrol e Barrie poderiam ser irmãos (será que foram amigos? Se alguém puder me informar…). As narrativas são bem semelhantes. Tudo gira em torno do tema central do desafio de se crescer. De se deixar de ser criança. A dolorosa e inevitável (para alguns) saída da infância. Além disto, girando em torno também se tem o tema da morte e dos desafios de se lidar com o luto (do pai de Alice e de Wendy). E o que mais me chama a atenção é o tema em comum sobre o tempo…

O tempo aparece de modo muito intenso. Ambas as estórias foram escritas na Inglaterra vitoriana, no ponto alto do processo de industrialização. O relógio, representado pelo Big Ben, em Londres, é a marca da modernidade. A marca do fim do tempo mítico, do tempo poético (da “Hora” de Max Martins). Representa o tempo contado, “re-lógico”. O tempo que não espera por ninguém. Não admite o atraso para o trabalho. Nem o atraso do processo de amadurecimento das crianças (que trabalhavam nas minas de carvão e muitas estavam órfãs pelas ruas). O tempo é a lembrança da morte e do crescimento. Ele é o ponto de encontro de todos os temas.

Aqui, então, acabo por me lembrar do final do filme “Hook: a volta do Capitão Gancho” (1991), em que Peter (o “advogado-peter-pan”), na linda interpretação de Robbie Williams, vem nos dizer que “viver é a maior aventura”. Em outras palavras, deixar o tempo passar é a maior aventura. Desafiar a “Terra do Sempre” em que vivemos. Esta terra de piratas e medrosa do tempo-crocodilo (do tempo que devora, como Chronos, pai de Zeus). Uma lição bem semelhante do filme que vi neste domingo, quando Alice, dentro do espelho, dentro de si, buscando resolver os problemas do “mundo real”, ouve do próprio Tempo (que é um personagem, um tempo-máquina), que diferente do que todo mundo pensa, ele, o Tempo, também pode ser amigo do homem.

É um belo filme. Ainda bem que fui vê-lo e ver um pouco da minha infância. Pois o que é o cinema, se não um entrar num espelho?

Ricardo Evandro S. Martins, (31/05/16).

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