Wittgenstein, Heidegger e a poética do haikai: um encontro com o Oriente

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A poesia de estilo haikai e o princípio taoísta do wu-wei  (“dizer não dizendo”) tem uma proximidade com o que o giro linguístico-pragmático realiza. Ao menos pela compressão wittgensteiniana do “giro”, a poesia econômica e de imagens breves, 3 versos (5-7-5 silábas tônicas), falando de um instante natural ou afetivo, aproxima-se da tarefa filosófica de desencantar o modo tradicional de se entender a linguagem, um modo que a entende como se ela fosse praticada, caso queira ter rigor descritivo do real, por meio da estrutura conceitual-judicativa (proposição baseada em sujeito-verbo de cópula-e predicado).

PRIMAVERA

Borboletas e
aves agitam voo:
nuvem de flores.

Bashô (1684)

Será que aqui encontramos uma possível conexão entre Wittgenstein e o Oriente, mas também o maior filósofo continental do “giro”, Heidegger?

Com Heidegger, podemos ver a poesia como um modo de expressão do Ser liberada das amarras da gramática fundada na metafísica do Sujeito-verbo–predicado. A língua é encarada de modo desamarrado da necessidade gramatical, que tem fundo metafísico, de expressar o mundo pelas categorias aristotelicas, em que o sujeito da oração , ou do juízo, está substantivado, passível de ser predicado via emprego do verbo ser como mero símbolo de igualdade ou de existência.

Assim, contra isto, a expressão poética aqui ganha o sentido de clareira (Lichtung) do Seer (Seyn). Do Ser mais originário do que a essência/substância/Deus. E do mesmo modo encontramos esta “clareira” no teatro japonês Nô, em que a expressão cênica não se dá pela fala ou mímesis rigorosa do “real”. Mas pelo silêncio e pelo meio-ato, meio-gesto, que “diz, não dizendo”… Seguindo a característica do Seer (Seyn), que se manifesta como envio epocal, destino em uma época e que, ao fazer isto, também esconde-se, pois nossa finitude não acessa sua totalidade.

Sua totalidade para nós, enquanto entes finitos e sem essência, é o vazio sobre o qual nos projetos em possibilidades diversas, limitada pela nossa morte. Assim, o Seer dá-se, escondendo-se. Quando ele é expressado, so meia-expressão dar-se, como os meio-gestos do Teatro Nô.

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Wittgenstein e Heidegger se aproximam do Oriente aqui: numa outra compreensão de como usamos a linguagem e de como lidamos com o ser das coisas. Em vez de (somente) entendermos a língua como instrumento de representação do mundo, como órganum, como meio, a língua é expressão diversificada, como moradia onde o significado das coisas se apresentam. Um lugar não apenas de expressão por palavaras, conceitos, mas por metáforas, meias-palavras, chistes, ironias cheias de camadas, falas contraditórias, aptas para a criação poética, abertas à poiésis enquanto ação humana com as coisas e os outros.

Alem disto, e aqui a importancia do teatro japones Nô, a linguagem é vista como uma performance. Dizer não é retratar, descrever, relatar, como ato de reflexão contemplativa, teorética. Mas sim uma performance, uma ação, práxis. E por de tras das palavras? Não há essencias — fantasmas, como dizia Wittgenstein. Mas uma lida prática com coisas que são palavras. Seu fundamento de sentido é o uso, a “pragma” ordinária ou dentro de um contexto (jogo) específico.

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2 comentários em “Wittgenstein, Heidegger e a poética do haikai: um encontro com o Oriente”

  1. O haicai é um tipo de texto que é envolto por uma capa de silêncio. É um tipo de linguagem que pede para o leitor tirar ela mesma e revelar outra coisa. Por isso que, ao contrário do Ocidente, a poesia oriental tem uma tendência muito forte para a metonímia.
    Creio que Wittgenstein se aproxime deste tipo de poesia não pela sua teoria da linguagem, mas pela conclusão em que ele chega: o silêncio, um certo inefável que não cabe na filosofia. Por isso que ele diz: “a filosofia deve ser escrita como poesia e a poesia escrita como filosofia”. É algo que um Antônio Cícero, por exemplo, não concordaria, mas que existe sim, camadas filosóficas na poesia e uma discussão deste tipo é ainda recente e acalorada.
    Embora Wittgenstein desordene a linguagem como forma de organizar sua filosofia, parece-me que está um pouco distante do desordenamento do haicai: o haicai justapõe e “fragmenta” para um sentido único, enquanto para Wittgenstein (em sintonia com as Vanguardas, talvez), fragmenta para multiplicar os sentidos, eis a grande diferença.
    Já “A escada de Wittgenstein” da Marjorie Perloff? Recomendo muito, vai te ajudar a pensar essa relação com o Wittgenstein com a literatura. Relações ainda vistas como promíscuas para muitos doutores das Letras e da filosofia.
    Enquanto a Heidegger, ele está mais próximo. Parece-me que ele compartilhar muitas coisas com o Wittgenstein: ambos discutem a natureza da linguagem como tentativa de expressão daquilo que está fora dela, ultrapassar os limites da linguagem para a mesma se tornar uma via de múltiplas possibilidades.
    O que une o filósofo e o poeta é a linguagem, sem dúvidas.
    Eis uma discussão que dá muito pano para manga, principalmente quando se lembra o ensaio “Poesia e pensamento” do Valéry.

    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

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