“NÃO FALE SOBRE CRISE, TRABALHE!”: LACAN, SOBRE ARISTÓTELES E TEMER

images (15)

Sobre ética e psicanálise, há uma passagem no Seminário 7 em que Lacan lembra que tradicionalmente a ética aristotélica é apresentada como uma ética do bem, que se coloca como tal e que influência a ética tradicional posterior. Segundo Lacan, esta ética marca todas as propostas que depreciam o desejo em nome da modéstia, da temperança. Pois, para Aristóteles, a mediania, o meio-termo deve ser a medida da ação virtuosa sobre as paixões — “pathologische”, como diria Kant.

No entanto, Lacan põe em questão qual seria a medida sobre a qual se guiaria o agir humano considerado “ético” (virtuoso)? Onde o psicanalista francês quer chegar com esta pergunta é dizer que esta “medida” é sempre marcada por uma ambiguidade. Pois, “(…) no fim das contas, a ordem das coisas sobre a qual ela pretende fundar-se é a ordem do poder, do poder humano, demasiado humano” (LACAN, [1960], 2008, p. 368). Ele ainda completa, justificando tal afirmação, dizendo-nos que “[a] moral de Aristóteles — vejam de perto, vale a pena — se funda inteiramente numa ordem certamente arrumada, ideal, mas que responde contudo à política de seu tempo à estrutura da Cidade” (LACAN [1960], 2008, p. 368). O que isto significa?

Em outros termos, para Lacan, a ética de Aristóteles, no fundo, “(…) é uma moral do mestre, feita para as virtude do mestre, e vinculada a uma ordem dos poderes” (LACAN, [1960], 2008, p. 368). Talvez Lacan esteja querendo dizer aqui que, por mais que a mediania seja a “medida” da ação humana moralmente correta e virtuosa, a verdadeira medida deste agir é dada por uma ordem de poder político posta. E posta por um mestre, ou, para usarmos um termo hegeliano, por um “senhor”.

Portanto, no fundo, a moral é sempre a do senhor. De quem tem poder. E, mais, o poder é sempre sobre o desejo, pela sua depreciação — em nome de um ideal ascético, negador da vida, como diria Nietzsche?. E, assim, a história tem mostrado como o “senhor” do poder atua quando se empodera de uma cidade ou de um país. E Lacan lembra, então, da semelhança entre o discurso de Alexandre e de Hitler, quando um domina Persópolis e o outro domina Paris:

“Continuem trabalhando. Que o trabalho não pare”, ou, em outras palavras, “(…) [q]ue esteja claro que não é absolutamente uma ocasião para manifestar o mínimo desejo. […] A moral do poder, do serviço dos bens é — Quanto aos desejos, vocês podem ficar esperando sentados” (LACAN, [1960], 2008, p. 368).

Com esta poderosa passagem, poderíamos discorrer mais sobre como a ética aristotélica e as éticas ascéticas em geral deram continuidade a esta relação de poder senhorio, que dita a medida do meio-termo do agir por um ideal de bem. Mas, para nós, atualmente, no Brasil, mais importante e urgente do que este tema é lembrarmos do Presidente Temer e de seu slogan proclamado logo quando assume o lugar de Dilma, depois de seu impeachment: “Não falemos sobre crise, trabalhe!”. E por quê?

Ora, não é isto mesmo o que Lacan falava? O slogan de Temer não diz outra coisa senão a de que a ética do país agora é a de ceder no seu desejo. A “crise”, sobre a qual não se deve mais falar, trata-se das demandas sociais, de direitos e de desejos consumeiristas (por quê não seria?) dos brasileiros. Seus desejos silenciados. E em prol do “trabalho”, do agir conforme o ideal de bem da agenda político-econômica da aliança PMDB-PSDB.

Em resumo, o slogan quer dizer: “não fale em direitos, ceda nas suas demandas e continue trabalhando, pois quem sabe pelo ‘seu próprio mérito’, ‘hardworking’, você não ascenda!”. Só que o problema desta slogan é que não sabemos se esta ascensão seria espiritual, como a ética tradicional tinha como intenção. Então, o que seria este “ascender”, em tempos de capitalismo como religião (Benjamin) e de dinheiro como deus (Agamben)?

Anúncios

2 comentários em ““NÃO FALE SOBRE CRISE, TRABALHE!”: LACAN, SOBRE ARISTÓTELES E TEMER”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s