Alguns comentários sobre a fantasia de ser “invadido” ou “infectado”, pelos neuróticos obsessivos

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(Cena do filme “O homem dos ratos”)

Este texto foi feito em resposta aos amigos Bárbara Dias, Davi Carneiro e Francisco Rocha, que pediram explicações a uma postagem que fiz no Facebook em março deste ano. Assim, respondo aos amigos, a seguir:

O neurótico obsessivo é uma estrutura psíquica resultante do processo de aculturação, inserção no registro da Lei, das barreiras morais sociais, enfim, do processo de castração, em que a sua lida com o recalque dos seus desejos é por meio de um mecanismo de defesa contra o seu próprio desejo barrado de alguma maneira na sua história de vida.

A questão é que retorna este desejo proibido na figura simbólica de ataque, invasão, contaminação, infecção ou sujeira. Um modo de reagir, de responder a este deslocamento simbólico é buscar sempre um tipo de comportamento que afaste a sujeira — que pode ser um substituto do desejo por dinheiro, desejo de se apaixonar, que é um modo de ser atacado, adoecido (pathos), flechado por Eros –, refletindo-se em comportamentos repetitivos, ritualísticos, que buscam a limpeza moral, ascetismo radical, ou ainda transtorno compulsivos que envolvem mania de limpeza — talvez por estar preso à fase anal, fase de produção, manipulação do que se produz, que é visto como sujeira na primeira infância.

O obsessivo está sempre com a sensação de que será invadido, mas isto é um substituto da “invasão” do seu próprio desejo recalcado, segundo a economia libidinal apontado por Freud. Agora, ha aqui também a questão da segunda tópica freudiana, um ataque que gera defesas mentais, simbólicas, pelo supereu, contra aquilo que não se pode desejar — seja por interdito legislativo-cultural, seja pelo própria realidade.

Nessa defesa contra o outro si — já que pra psicanálise não há um sujeito individual, mas sim um sujeito dividido entre eu, supereu e o isso — pode haver um deslocamento para o próprio sujeito, que ritualiza um comportamento para se livrar dos pensamentos repetitivos, gerando desconforto, e mostrando, contrariamente a qualquer pensamento vitalista e darwinista, que não somos só desejo de viver, sobreviver, mas também de morte*. De término deste desconforto a fim de alcançar a homeostase final: a morte.

* Lacan acaba por também trazer outra perspectiva para a pulsão de morte, quanto ao seu caráter criativo.

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