Alguns comentários sobre Ockham e sua “navalha”

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Aprendi com meu amigo e colega, Bráulio Rodrigues, quem estuda comigo Ockham, seu Nominalismo e sua influencia na Modernidade, que a imagem da “navalha de Ockham” vem da prática dos franciscanos de viverem de modo mais simples possível, assim com São Francisco de Assis ordenou. Os frades mendigavam pela Europa, trazendo consigo apenas uma navalha como instrumento multifuncional (cortar barba, cabelo, comida, etc.).

Agora, para além das anedotas, o preceito da “navalha de Ockham” vem do seu Nominalismo. Por quê?

De modo resumido, a “navalha de Ockham” é o princípio que diz que se há dois modos ou mais de explicar alguma coisa, a explicação mais simples é a que deve ser considerada, já que “a pluralidade não deve ser introduzida sem necessidade”. Mas qual o fundamento deste preceito?

Refutando o Realismo tomista, a partir de uma interpretação árabe de Aristóteles, Ockham entendia que só tem existência concreta aquilo que expressamos de modo individual ou que sentimos no nosso íntimo.

Assim, palavras abstratas, noções gerais, como humanidade, calidez, justiça, só fazem sentido se se estiver se referindo a um ser humano, a uma coisa com calor ou a um ato/fato justo, em específico, individualmente, respectivamente. Pois, para Ockham, fora das referências sobre elementos individuais, tudo não passa de mero “nome”. Daí o seu Nominalismo .

É interessante notar que esta ideia nominalista possibilitou a Ciência e seu empirismo. A partir dela foi que se passou a entender que o conhecimento não se daria por especulação filosófica abstrata, mas pelo estudo do que se dá em concreto, individualmente.

E a “navalha de Ockham” faz parte dessa busca pelo “simples”, “individual”, própria do Nominalismo — sendo uma imagem com alusão ao modo simples de se viver dos franciscanos, em que uma navalha resolveria qualquer situação.

Um exemplo interessante é o de Galileu. Pois é possivel explicar a rotação dos planetas em torno do sol, tendo a Terra como referencial, como centro. Mas Galileu mostrou que é muito mais simples matematicamente e geometricamente explicar o sistema planetário pelo modelo heliocêntrico.

O modelo do sistema planetário que Galileu mostrou não parte de uma especulação teológica e desconfia da demonstração matematico-geométrica sobre o movimento dos planetas (e do Sol), a partir do referencial da Terra.

Desse modo, seu modelo heliocêntrico acaba por ser um outro modo de explicar o sistema planetário. E um modo de cálculo que, além de simplificado, pois exige menos cálculo, tenta também subverter o pressuposto abstrato de que a Terra seria o centro de toda criação.

Aqui, parte-se da explicação mais simples dentre as possíveis e da explicação desde uma tese menos abstrata. Esta é uma própria aplicação do princípio da “navalha de Ockham”.

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