Freud e a “pulsão de morte” como outra dimensão do instinto de sobrevivência

images-7Antes de começarmos, alertamos o leitor que este texto é apenas um ensaio inicial de um não-especialista em Psicanálise. Aqui, iremos nos restringir aos textos de Freud sobre a sua “Segunda tópica”. E as nossas reflexões não partem das interpretações filosóficas e psicanalíticas tradicionais e mais contemporâneas  – como os desenvolvimentos conceituais de Lacan sobre “gozo” e o potencial criativo da “pulsão de morte”. Este modesto ensaio abordará o tema a partir de uma questão polêmica na teologia medieval, para, depois, adentrar na questão mesma da “pulsão de morte” elaborada por Freud. Feito o alerta, passemos agora ao texto.

Por causa das limitações impostas à razão natural pelo nominalismo de Ockham, no século XIV, as noções antigas de natureza e de natureza humana sofreram mudanças drásticas. Aristóteles entendia o mundo natural como um mundo organizado pela causa final dos entes naturais e o ser humano como um “animal racional”, naturalmente dotado de linguagem. Já São Tomás de Aquino entendia este mesmo mundo natural como a “causa segunda”, a criação de Deus, regulado pelas Leis Naturais, sendo o ser humano aquele ente natural regulado pela Lei que o faz tendente ao “Bem”.

Como se vê, enquanto Aristóteles e São Tomás de Aquino resumiam as noções sobre natureza e natureza humana à questão da finalidade e da regulação, por outro lado, por meio da perspectiva nominalista, Ockham entendia a natureza como um mundo em que a finalidade, enquanto causa final dos entes, seria mera metáfora criada pelos homens. Para Ockham, não seria possível à razão humana acessar a finalidade das coisas. Pois a cognição dos entes naturais se dá pelo particular, com a individualidade, e nunca pelos chamados “universais”, que para Ockham são conceitos gerais sem realidade. Assim, tal posição o fez ser considerado como o “inceptor da via moderna”, pois foi pelo Nominalismo de Ockham que a Filosofia moderna e seu idealismo racionalista, empirista e, posteriormente transcendental e Absoluto, puderam se desenvolver.

Já na Modernidade, Hobbes, enquanto empirista e filósofo político moderno, levou o nominalismo ockamiano ao extremo com o seu Leviatã. Desde a perda da ideia de finalidade da natureza humana, pois a sua causa final é elemento abstrato pertencente ao conceito abstrato de “humanidade”, o que restou como passível de ser compreendido sobre os homens e sobre a natureza humana foi a experiência com a violência individual dos seres humanos. Hobbes subverteu a noção de que o homem, visto aqui de modo geral mesmo, como “humanidade”, tenderia ao bem e à esquiva do mal. Para Hobbes cada indivíduo é violento por natureza. Não há uma finalidade para as suas ações que o levariam ao bem. O que há é a liberdade enquanto possibilidade de livre agir e de desejar autorizada por Deus e que precisaria ser restrita pelo Soberano, num pacto em que a liberdade natural, e a violência decorrente desta natureza, seria substituída pela liberdade civil.

Partindo do pressuposto de que não se conhece o “homem” em geral, nem a natureza de sua “humanidade”, tampouco a finalidade que tenderia o homem ao bem, Hobbes apela para a experiência com os indivíduos violentos, que procuram pelo poder e disputam território. Mesma a formulação abstrata feita por Hobbes, de um tempo em que toda a “humanidade” estaria num estado de liberdade sem limites e de extrema violência, trata-se, aqui, de mero recurso metódico. Recurso ciente de sua irrealidade para justificar racionalmente a importância do Estado na tarefa de limitação da liberdade natural e fundar direitos subjetivos de seus súditos derivados do contrato social e desvinculando de qualquer noção de “fim”, “bem” ou de Lei Natural.

Assim, foi por causa do legado de Ockham e de Hobbes que a Ciência moderna se desenvolveu. Pois foi a partir das compreensões ockhamiana e hobbesiana que se retomou a questão da lei natural no mundo moderno. Pois o mundo natural, a partir de Ockham e Hobbes, é um lugar sem finalidade e a regulação não seria encontrada pela mera especulação filosófica, típica do realismo aristotélico-tomista, mas sim por um esforço metódico de experimentação dos fenômenos naturais. Contudo, mesmo com a reinterpretação moderna da antiga noção de Lei Natural tomista, vista agora como mera regularidade causal dos fenômenos, logo no início do século XX, devido aos avanços da Física quântica, esta mesma noção de lei natural moderna acabou, por sua vez, sendo relativizada pelas Teorias da relatividade e da incerteza por Einstein e por Heinsenberg, respectivamente. E não foi apenas em relação aos estudos da Física, esta relativização da percepção moderna da Lei Natural acabou por afetar aquele grande trunfo da Biologia de Darwin e dos filósofos vitalistas, que foi o “instinto de sobrevivência”. Para ser mais explícito, de modo análogo ao que a Física quântica fez ao naturalismo oitocentista, o movimento psicanalítico acabou por subverter a tese de que nós, seres vivos, estaríamos apenas em busca da continuidade das nossas próprias vidas físicas.

Inspirado nos estudos de Spielrein em Destruição como causa do devir no ser e mais essencialmente influenciado pela filosofia de Schopenhauer, Freud leva a frente, com o seu texto Além do princípio do prazer, sua intuição reflexiva de que os seres humanos não são impulsionados apenas pelo desejo de sobreviver. Para Freud, haveria também de se perceber um impulso autodestruitivo concorrente ao nosso desejo de sobreviver.Aqui, possibilitado por uma outra compreensão da natureza humana, já não mais vista como tendente ao bem, pois não já se entende aquela finalidade da Lei Natural em São Tomás de Aquino, e possibilitado pela perspectiva pessimista de Hobbes quanto à natureza violenta e destrutiva dos seres humanos, Freud, ao mesmo tempo que dá continuidade ao entendimento moderno de que a vida humana não é regida por fins, também rompe com o Vitalismo do século XIX e com o próprio darwinismo que resta ao “instinto de sobrevivência”. Em vez do princípio de que os seres vivos buscam a continuidade de seus próprios organismos e de sua prole, Freud invoca aquilo que ele chamou de “princípio nirvana”.

A ideia do “princípio nirvana” se centra na noção de que a vida humana busca a homeostase, o equilíbrio das tensões internas da vida, seja do prazer intenso ou do desconforto intenso. E a morte seria o ponto máximo homeostático, momento “nirvânico” em que finalmente a vida retornaria à estática de desde antes do início da vida e da respectiva busca por prazer. Assim, aquilo que Freud chamou de “princípio do prazer”, responsável pela tensão de energia do “instinto de sobrevivência”, que direciona a vida à busca pela procriação e, portanto, pela vazão da energia e continuidade da prole, passa, agora, a concorrer com um outro princípio, um desejo, o de morrer, o de retornar ao silêncio anterior à vida. (FREUD, 2010, p. 227-228).

Mas esta foi a primeira reflexão, e de caráter mais biológico, de Freud, em que ele mesmo confessa não ter ainda recursos biológico-científicos e filosóficos para sustentar a tese. De modo mais amadurecido, já no tardio texto O mal estar na civilização, Freud pensa a sociedade e a política pela perspectiva psicanalítica e a “pulsão de morte” é retomada como uma crítica ao estado cultural da Europa da primeira metade do século XX. Neste texto, Freud diz expressamente que não há como negar a “ruindade” da natureza humana e em como o “outro instinto”, o de morte, as vezes pode se direcionar para “fora”. (FREUD, 2012, p. 34).

Assim, o instinto de preservação, representado por Eros, convive com a pulsão de morte na psyché humana. Mas o ponto central desta minha explicação sobre a relativização do domínio do instinto de sobrevivência nos seres humanos é que para a Psicanálise o desejo de morrer existe como modo de se equilibrar a tensão vital do prazer ou do desprazer. Outro ponto que quero destacar é o risco em que os seres humanos enquanto civilização incorrem quando, por próprio recurso do Eros, o desejo inescapável de se autodestruir se transfere “para fora”, para o outro ser humano, o que, paradoxalmente, acaba por colocar o próprio ser desejante da morte do outro em risco da própria morte. (FREUD, 2012, p. 33-34).

Por fim, Freud está aí tentando explicar metapsicologicamente o período belicoso da guerra no século XX, século marcado pelo domínio de técnicas de destruição em massa, quando a tecnologia, portanto, torna-se um risco real para a humanidade e para a Terra.

*O Texto é parte do meu artigo: http://revista.fcat.edu.br/index.php/path/article/view/261/179

** Referência: MARTINS, Ricardo Evandro S. Heidegger e Jonas sobre o “pergio” da técnica moderna. Amazônia em Foco, Castanhal, v. 5, n.8, p. 160-177, jan./jul., 2016.

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3 comentários em “Freud e a “pulsão de morte” como outra dimensão do instinto de sobrevivência”

  1. Parabéns pela escrita. Tensa , mas esclarecedora, até para quem , como eu, às vezes desconhece os conceitos discorridos. A concorrencia O instinto de sobrevivencia e o desejo da morte, me abalaram.

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