Malick e a busca pelo amor pleno no Tempo do Niilismo

malick

Neste dia 28 de junho, fui ao IAP assistir a mesa redonda promovida pelo CEC (Centro de Estudos Cinematográficos). O CEC convidou o crítico de cinema Augusto Pacheco de Queiroz (UnB) para palestrar no evento sobre Terrence Malick, famoso diretor norte-americano, que filmou, dentre outros filmes, “A árvore da vida”, “Terra de ninguém” e “Além da linha vermelha”. O evento foi intitulado de “O cinema de Terrence Malick: uma estética contemporânea?

A palestra foi excelente e a mesa também. Destaco quatro momentos da mesa-redonda: a palestra mesma do Augusto Pacheco, que falou da genialidade do Malick, de sua reclusão pessoal, da importância do silêncio nos seus filmes, e, especialmente, pelo curioso interesse do diretor pela filosofia de Martin Heidegger – segundo Augusto, Malick teria traduzido do alemão para o inglês a obra “Der Satz vom Grund” (“O princípio da razão”); além disto, destaco a fala de um dos coordenadores do CEC, o Prof. Marco Antonio Moreira, que destacou o movimento da câmera na direção de Malick, que não é linear, mais parecendo um olhar de um espírito que flutua; e, por último, destaco a fala do Prof. Francisco Cardoso sobre a importância dada por Malick aos Estados Unidos nos seus filmes, como sendo “a pátria” a ser explorada e ausente de tradição como a Europa; e a fala, na plateia, do Prof. Édison Ferreria, professor de filosofia da UFPA, que rechaçou qualquer relação da filosofia de Heidegger com a religiosidade.

Bem, o evento foi muito importante. Nele pude confirmar a minha mera intuição de que Malick é um diretor especial e que possui filmes de caráter filosófico, além da genialidade na arte de nos oferecer uma experiência estética com imagem e som. E não apenas isto, o evento promovido pelo CEC me levou a procurar por “Amor pleno” (“To the Wonder”). Aluguei o filme na FOX, ontem mesmo. Estava ansioso para assisti-lo. E tive já a boa impressão das primeiras imagens românticas que vi de um homem (Bem Afflick) e de uma mulher (Olga Kurylenko). Os nomes deles nunca aparecem no filme. As imagens iniciais são de Paris. Belas imagens, que logo passam para o Mont de San Michel, na França — mesma locação de quase toda a filmagem de um outro filme, “O ponto de mutação”, feito no início dos anos 90, de temática ambientalista e filosófica; muito criticada por ser inspirada no “best-seller”, F. Capra). Bem, a mim me chamou muito a atenção a trilha sonora do filme. O “Prelude” de “Persifal”, peça musical do gênio da música clássica do século XIX, que tinha sido o músico preferido de Nietzsche: R. Wagner. Esta trilha se repetirá pelo filme ao menos 3 vezes. Em momentos decisivos. Nas cenas de mudança. E a narrativa se dá em torno de 5 personagens centrais, mas vou me concentrar aqui em apenas 3: 1) o homem, personagem feito por Afflick; 2) a mulher, personagem de Kurylenko, sua esposa; 3) e o padre, feito por Javier Bardem.

1) O homem praticamente não tem fala no filme. Aparece quase sempre introspectivo. Mais preocupado com o seu trabalho, que parece ser de um biólogo. Este personagem de Afflick está quase em todas as cenas de romance, de conflito, de indiferença com as pessoas e, na maior parte do tempo, de muita preocupação com uma possível contaminação do meio ambiente. Talvez feita por uma empresa mineradora ou de petróleo, Afflick faz um personagem que está mais preocupado com a sua própria liberdade e com a saúde das pessoas e do meio ambiente. A única cena em que parece esboçar um sentimento mais forte, fazendo-o sair da indiferença para com o outro (sua esposa) e com o mundo, dá-se quando toma conhecimento, pela sua própria esposa, de que fora traído;

2) A esposa é feita por Kurylenko. Ela faz uma personagem francesa. Mãe solteira de uma pequena menina, também francesa. Os três aparecem bastante na primeira parte do filme. E ela parece ser a narradora da trama. Kurylenko faz uma personagem romântica, aparecendo muito com a sua voz em “off” – recurso apontado no evento do CEC como sendo característico de Malick, e, aqui, lembro disto bem presente no filme “A árvore da vida”. Ela aparece ao mesmo tempo como uma mulher que oscila em alegria e sofrimento. Ela sofre por causa de sua paixão pelo biólogo. Malick parece querer nos mostrar por esta personagem muitas pistas sobre o percurso comum do amor. Este sentimento que, quando surge, vem como um adoecimento (“pathos”, paixão, doença em grego antigo). Um sentimento que nos dá uma afinação (afetiva, como falava Heidegger) com o mundo de modo esperançoso. O amor aparece pelos olhos da personagem de Kurylenko como completude. Algo que nos faz lembrar do discurso de Aristófanes, quando no diálogo, Banquete, Platão apresenta o que se pode entender com a concepção romântica de amor: o amor enquanto completude. Trata-se do amor da passagem sobre o mito das almas gêmeas. Sobre a estória de que o amor representaria o alegre e fortuito encontro com a metade que teria sido partida de nós pela ira divina. A metade que nos completava. E que, quando ainda não se encontrava tal metade, o amor retomaria a sensação de falta e incompletude constante em nossas vidas mortais, que um dia foi em conjunto com outra alma. A personagem de Kurylenko acredita nisto. E isto a faz parecer adolescencial. O filme a mostra sempre saltitando, literalmente, brincando no supermercado, nos enormes campos de alguma cidade pequena do meio-sul dos Estados Unidos. Mas a sua jovialidade não representa somente esperança. Ela é uma personagem frustrada porque está sempre atrás do amor do personagem de Afflick. Mas nunca o tem. Ele esboça participação nas brincadeiras dela, compartilha sorrisos, ainda que frios. Mas parece não querer nunca seguir em frente no relacionamento, dar o passo do casamento. A sua liberdade e a preocupação com a Terra, com a saúde das famílias afetadas pelas substâncias tóxicas de alguma indústria, parecem o impedir de adentrar na tarefa de “completar” o “buraco” impreenchível da francesa. Ela, que, de primeira, está saltitando de felicidade, começa a perceber a distância dele e passa a entrar em crise. As crises são tão intensas, que a violência e o ódio nascidos do mesmo solo que o seu amor, vão tomando proporções que a leva a cometer o pior pecado entre um casal (depois do pecado da indiferença, claro), que é a traição. A traição não gratuita. Aquela que não se faz por impulso erótico ou por encantamento por um terceiro. Aqui, falo da traição por amor. A da vingança. Não se trata da vingança contra uma violência. Falo da traição que se dá contra a falta de amor. Contra o desamor. (Quem sabe aqui, Afflick e Kurylenko não estariam também encenando o desamor da América pela a tradição europeia?);

3) Mas esse desamor não é sentido somente pela personagem de Kurylenko. Bardem faz um padre em crise profunda quanto a um outro amor, por uma outra [P]essoa. O padre aparece em duas situações no filme. Na igreja, com o som de sua homilia sobre o amor – especialmente, pregando as Epístolas de Paulo –, e no mundo profano (bairros pobres e presídios), consolando viciados, mendigos e presos. Ele aparece muito menos que o biólogo, mas parece dividir a narração em “off” com a francesa. Sua desesperança se assemelha a da personagem de Kurylenko, quando descobre que seu “sonho americano” particular fracassara. Só que no padre há uma sensação de errância surgida do silêncio. Do silêncio de Deus. Este Deus católico que parece não se comunicar. Seu próprio filho encarnou como homem e sua palavra se fez carne. No entanto, para o padre, Deus se ausentou. O padre sofre com o abandono de Deus (do “Seer” [“Seyn”] em relação aos entes? Como dizia Heidegger em “Nietzsche”?). Ele vive o tempo do niilismo. Sua descrença é solitária e privada. Sua crise é de fé. E apesar de continuar seu trabalho catequético, internamente ele pede por mais. O padre parece buscar o “amor pleno”, o amor do “Wonder”, do Maravilhoso” de que talvez São Paulo falava, mas a indiferença de Deus o perturba. São Paulo, que, segundo Nietzsche, oferece-nos uma leitura platônica de Cristo, sabe que o amor, aquele pleno, somente poderia ser encontrado com Deus. A Verdade eterna. A questão, todavia, é que, diferente da francesa, que busca este “amor pleno” no seu marido, o padre parece estar frustrado por não encontrar o amor na plenitude de Deus. Em uma cena instigante, o faxineiro tentar mostrar ao padre que Deus está na luz que atravessa os vitrais. Sugere que é preciso tocar na criação. Tocar na materialidade do amor em forma de luz do sol. Mas nada disso parece convencer o padre. Será que Malick quer nos dizer que esta frustração é maior que o padre? E que não se trata de uma mera crise momentânea, comum entre os que tem fé e possuem o preço da dúvida racional?

Voltando ao fato biográfico sobre o interesse de Malick por Heidegger, é possível dizer que ao menos três temas bastante heideggerianos estão presentes em “Amor pleno”: a) a liberdade da transcendência do homem enquanto ser-aí (Dasein); a.1) e sua luta contra a vida inautêntica, isto é, contra a vida imersa nas preocupações cotidianas dos afazeres domésticos, daquilo que se pode chamar de “homem médio”, os afazeres do “homem casado”, “trabalhador”; b) o amor, o “eros”, tema tratado por Heidegger de modo superficial em “Ser e tempo”, aparecendo como algo próximo da “Stimmung” (traduzido pelo Prof. Benedito como “tonalidade afetiva”, enquanto disposição no registro do afeto do ser-aí para “com” o outro e “no-mundo”). A “Stimmung” é a abertura que ele tem e que não se reduz a um mero sentir. O amor, aqui, faz parte da disposição do ser-aí, do seu modo de ser no mundo, com o outro e, aquém de tudo, consigo, enquanto “cuidado”, a unidade (“ek-sistenciária”) dos seus modos de ser, de sua própria existência; c) e, por fim, o niilismo presente na desesperança do padre e na transformação da Terra em recurso natural. Sobre o padre, refiro-me a sua existência crítica por talvez perceber que a “morte de Deus” anunciada por Nietzsche não seja uma defesa do ateísmo ou um desejo pela morte do sagrado, mas sim uma constatação epocal. Uma constatação de que o tempo em que vivemos eliminou Deus como condição. A Modernidade e sua técnica moderna prescindiram Deus enquanto fundamento metafísico, lógico, epistemológico e moral. Partindo de Heidegger, e de modo cinemático-poético, talvez Malick esteja querendo nos dizer que o padre percebera que a desesperança é um “destino”; o momento mesmo em que vivemos. O momento da impossibilidade de se atingir o “Wonder”. Aquele maravilhoso Ser. E o preço a ser pago é errância do seu rebanho, a intoxicação da Terra e dos homens.

É um belíssimo filme. Para continuarmos com Heidegger, posso dizer que Malick representa bem a poesia maquinal e de gene industrial do nosso tempo: o cinema. A arte que realiza o poetar com a técnica moderna. O cinema surge como uma flor de lótus em meio ao deserto feito de máquina. A salvação poética vinda da técnica no tempo mesmo da tecnologia. Malick poderia figurar como uma “voz do Ser”, mas não pela poesia escrita, e sim pela poesia do som-imagem que ele produz.

Ricardo Evandro S. Martins.
01/07/16.

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