Heidegger e Jonas sobre o perigo da técnica moderna

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Para começarmos a falar sobre a técnica, sua essência e o suposto perigo que causa aos seres humanos, devemos começar por quem lidou com o tema a partir de uma abordagem original. Estamos falando de Heidegger e do seu projeto “destruidor” das sedimentações metafísicas forjadas pela Filosofia para dar lugar ao que o filósofo alemão chamou de “tarefa do pensamento”. Depois, falarei sobre como Hans Jonas, que fui aluno de Heidegger, deu seguimento à reflexão sobre a técnica, mas desenvolvendo-a a partir de uma proposta de inserção da dimensão ética sobre o tema com o seu “Princípio responsabilidade”. Assim, começando com Heidegger, o primeiro ponto a ser destacado é o modo como o filósofo lidou com a relação do ser humano com o mundo circundante e com a própria concepção do sujeito humano. De inspiração fenomenológica, após ter escrito seus primeiros textos de relevo sobre o conhecimento pré-teorético, Heidegger publica seu tratado mais famoso, Ser e tempo, em 1927. Este é o Heidegger pré-“viragem” (Kehre), preocupado em refazer a pergunta pelo Ser, buscando sentido do Ser por meio da analítica das estruturas existenciais do que chamou de Dasein (ser-aí), único ente com o privilégio de estar aberto para a manifestação do Ser. É claro que Dasein é um outro nome para o ser humano, mas chamado assim com o intuito de se livrar da carga metafísica tradicional da ideia de sujeito (ego cogito, subjectum) da Metafísica moderna.

Assim, Heidegger leva às últimas consequências o processo de perda da essência do sujeito humano. O sujeito, agora chamado de Dasein, deve ser visto como aquele ente jogado no mundo circundante e deve ser compreendido como o ente sem substancialidade, sem essência, pois seu fundamento é abissal, sendo um ente que se projeta na temporalidade, tendo a sua finitude como limite das infinitas possibilidades de seus projetos de vida. Desse modo, no seu famoso texto tardio sobre A questão da técnica, Heidegger vem nos dizer que procurar saber o que é a técnica exige deixar o Dasein livre, aberto à essência da técnica. E se se conseguir acessar a essência da técnica também seria possível fazer a experiência dos limites de tudo o que é técnico. Heidegger, então, alerta para o equívoco de achar que a essência da técnica residiria na antiga compreensão de técnica enquanto atividade-meio para um fim e por isto achar que a técnica seria um conceito “neutro”. Daí a famosa frase do filósofo alemão: “A essência da técnica não tem nada de técnico”. (HEIDEGGER, 2006, p. 11-12).

Pois longe de ser algo simples, a técnica é um modo de “descobrimento”, de “disposição”, de “produção”, de “desvelamento” e “composição” (Gestell). E especificamente quanto à técnica moderna, trata-se de um modo de “armazenamento” e de “exploração” de energia, de recursos naturais. Assim, Heidegger fala da complexa noção de que a técnica é um envio de um desvelamento do Ser. Um Destino contra o qual o ser humano, o Dasein, não pode fugir. E este Destino é o “perigo” para o homem quando a técnica enquanto “disposição” reduz o próprio homem à “disponibilidade” técnica ou, ainda, quando faz o homem crer que tudo o que lhe rodeia só existe à medida que se trata de um produto humano, um recurso disponível à exploração e ao armazenamento da natureza ou do homem pelo homem, para o seu “dispor”. (HEIDEGGER, 2006, p. 19-23).

Neste sentido, a contribuição de Jonas sobre a essência da técnica moderna e suas implicações éticas estão em dois textos de modo mais marcante: no “Princípio responsabilidade” e em Técnica, medicina e ética. Na primeira obra, o filósofo chama de “programa baconiano” a colocação do saber a serviço da dominação da natureza, utilizando-a para melhorar a sorte da humanidade. Jonas chama de “baconiano” porque se refere ao filósofo moderno Francis Bacon, autor de Novum Organum, e da sua responsabilidade por ter inserido no imaginário moderno o preconceito de que “saber é poder”, isto é, de que o avanço do conhecimento científico significa avanço do domínio sobre o objeto de estudo, que, no caso, refere-se ao estudo da natureza e sua respectiva dominação por meio da técnica. E o alerta de Jonas é para o perigo desta fórmula baconiana se revelar insuficiente quando chegar ao seu ápice. Pois Jonas denuncia sua contradição intrínseca, já que o desejo de dominar pelo saber técnico é incapaz de proteger o homem de si mesmo ou, ainda, o próprio homem da força da natureza. (JONAS, 2006, p. 235-237).

Sobre isto, afirmo que Jonas está nos alertando para o perigo da ilusão moderna de que o homem pode se assenhorar das forças naturais, mais poderosas do que ele, ou do perigo desta dominação via técnica ser sobre o próprio homem. O alerta se assemelha aquele feito pelo seu mestre, Heidegger. No entanto, diferentemente do Filósofo da Floresta Negra, Jonas propõe uma ética da responsabilidade para a atividade humana da técnica. Seguindo as lições do Prof. Moretto, em Vida, técnica e responsabilidade: três ensaios sobre a filosofia de Hans Jonas, é interessante notar que Jonas enxerga a técnica como uma atividade humana dotada das características da “ambivalência” e da “magnitude”, em outras palavras, a técnica é esta atividade que pode ser destruidora e ao mesmo tempo produtora, além de ser uma atividade que, em nosso tempo atual, atingiu possibilidades grandiosas de transformação da natureza e da própria natureza humana. (MORETTO, 2015, p. 111).

O ponto central, portanto, é saber como é possível exercer a técnica com todas essas potencialidades e ambivalência característica, capazes de preservar o homem do desejo de destruição de si e do outro, garantindo com isto a esperança de um futuro para a humanidade.

*O Texto é parte do meu artigo: http://revista.fcat.edu.br/index.php/path/article/view/261/179

** Referência: MARTINS, Ricardo Evandro S. Heidegger e Jonas sobre o “pergio” da técnica moderna. Amazônia em Foco, Castanhal, v. 5, n.8, p. 160-177, jan./jul., 2016.

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2 comentários em “Heidegger e Jonas sobre o perigo da técnica moderna”

  1. Viajei nisso: “Pois longe de ser algo simples, a técnica é um modo de “descobrimento”, de “disposição”, de “produção”, de “desvelamento” e “composição” (Gestell).”
    Pierre Bordie, sociólogo, disse certa vez que o que escreveu até certa data, eram rascunhos. No entanto, não se auto-criticava constantemente pq, segundo ele, o pesquisador precisa de verdades. Hj o comichão para se publicar o q se pensa é tanto forte nas redes sociais qto no meio científico.
    O El país publicou a seguinte reportagem, no dia 17/01, “Ciência vive uma epidemia de estudos inúteis:Cientistas dos EUA, Reino Unido e Holanda denunciam que a pesquisa está perdendo parte de sua credibilidade.” E trouxe à baila “Um manifesto para a ciência reprodutível”, manifesto que questiona as tendências do pesquisador em ver padrões em dados aleatóreos, concentrando-se em evidencias q estao em linha c suas próprias expectativas, favorecendo dados, vendo um evento como tendo sido possível apenas após dele ter ocorrido… Em resumo, o manifesto expoe a existência de uma sereia que atrai pelo canto da apofenia, do viés de confirmação e do viés retrospectivo, além é claro da vaidade, na corrida por publicar descobertas. Produzindo não ciência, mas o Autoengano. Como quebrar esse encanto? Segundo o manifesto, a solução é a Metaciência, o estudo científico da própria ciência. O q Pierre Bordie já questionava: “Existem muitos intelectuais que interrogam sobre o mundo, mas são poucos aqueles que questionam o mundo dos intelectuais.”
    Fonte do Manifesto:
    http://www.nature.com/articles/s41562-016-0021

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