Reflexões sobre estética e hermenêutica

hans-georg-gadamer

1. A Estética (moderna) coloca a questão do Belo e de sua objetividade/universalidade como algo inscrito no campo do “como se” (“als ob”). O juízo estético de gosto escaparia, assim, do solipsismo porque teria sua validade fundada na universalidade do prazer compartilhado com outras pessoas capazes de julgar o que é belo e o que não é.

2. Então, meu ponto, aqui, é perguntar como a universalidade deste tipo de juízo é possível? Parece que a questão do “como se” desonera a investigação sobre o que seria mesmo aquilo que é belo. O juízo estético deve ser lidado como um tipo de julgamento em que sua validade lógica, a sua universalidade, ou, ainda, a sua objetividade, como exigências pressupostas, “como se” a subjetividade, os preconceitos, o engajamento e o interesse do sujeito judicante, enquanto unidade sintética da apercepção, não estivessem em jogo.

3. O Belo então deixa de ser uma questão central. A provocação sobre a verdade da arte me interessa muito mais — saber se a arte pode ser encarada para além do que a Estética (moderna) reduziu, como mero deleite estético subjetivo (empirismo) ou como ideal de formação (romantismo), pois esta questão retoma a problemática platônica sobre a relação entre beleza, moralidade/política e verdade. Mas se recolocarmos o Belo na centralidade da investigação, eu provocaria com o seguinte: Afinal, o que é a complacência da beleza sobre a qual Kant fala?

4. Seguindo Jesus Conill, com a sua interpretação ousada sobre o desenvolvimento da “destruição da estética” de Heidegger por Gadamer, atrevo-me a dizer que o Belo, já que a questão do gosto que levanto nesta postagem pode ser respondida pela CFJ de Kant, seria algo muito mais ligado ao prazer compartilhado dentro de uma comunidade, de um senso de beleza comum, do que uma questão metafísica realista, em que a Beleza é um Bem, um dado ou um núcleo eterno e imutável a ser encontrado por investigação.

5. É importante que eu destaque que esta leitura de Conill sobre Gadamer é singular porque salva Kant das críticas de Gadamer, pois teria o ilustre aluno de Heidegger reduzido a estética kantiana a um modo de encarar a arte como mais um capítulo da “história da perspectiva sobre a arte” como mera imitação, distante da Verdade, e/ou como uma solipsista perspectiva que vê o Belo como mera questão de gosto. Conill parece corrigir este ataque ao Kant por Gadamer e também parece contribuir para a questão, mostrando-nos que a compreensão de Belo, mesmo e já com Kant, dá-se pela devida compreensão de que se trata de algo ligado ao senso comum sobre a beleza, compartilhado pela comunidade em que se vive, em que se “joga” (Wittgenstein).

6. Só ressalvo que tal leitura de Conill sobre Gadamer, que pode ser resumida como uma crítica e um avanço a partir do próprio Gadamer, especialmente desde a primeira parte do “Verdade e Método I”, parece não enfrentar o conceito de “bild” e a possível metafísica realista que pode ser extraída na terceira parte do próprio “VeM I”. Conill está lidando aqui com uma compreensão retórica não só do potencial “veritativo” da arte, mas também com uma compreensão retórica sobre o belo e, consequentemente, sobre a sua objetividade, vista, aqui, como algo ligado à comunidade e à relatividade histórico-cultural que ela comportaria.

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