Sobre lembrar de esquecer e outras dificuldades

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Em sua Segunda consideração extemporânea, Nietzsche falava dos riscos do historicismo e de seu excesso de história (memória). Também Ricoeur, em “Memória, história e esquecimento” e no seu pequeno texto, O perdão pode curar?, cita Freud, quando fala que a memória é plástica, e faz uma fenomenologia da memória ao dizer que todo lembrar de algo é também sempre um esquecer de outras coisas. Ainda sobre Ricoeur, neste texto, o filósofo francês demarca sua fenomenologia do perdão, mostrando-nos que o ato de perdoar não é um ato de esquecimento. Tampouco de excesso de memória, que inviabilizaria o perdão. Mas um ato de amor. Aliás, de excesso de amor. Algo inscrito na ordem do injusto. Um ato que transborda o “dar a cada um aquilo que lhe é devido”, conjugado com uma conciliação entre si e o passado/memória.

Aqui há um uma lição ética importante e que desaprendemos: a de que lembrar, ter boa memória, é muito importante para o trabalho e para a atividade intelectual, mas que, por outro lado, também devemos aprender a esquecer, aprender a não lembrar. Se tivéssemos as lembranças de todos os momentos com nossos parentes e amigos, muitas mágoas e atos equivocados, deles e nossos, inviabilizariam qualquer relacionamento. E, mais, esquecer também é um caminho para se lembrar do que importa para sermos felizes. E a felicidade viria da sabedoria (“phrónesis”) de se conseguir ser prudente com o que se deve esquecer e lembrar. Esquecer, neste sentido, pode ser um caminho para se deixar para trás o que nos impede de sermos felizes.

(Texto revisado. Outubro de 2016)

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Um comentário sobre “Sobre lembrar de esquecer e outras dificuldades”

  1. Queria esquecer mais o fel do que me esqueço do doce. Mas o fel é marcante demais. Tanto, que qdo se sente o doce se agradece por não ser o gosto amargo o sentido. Numa eterna lembrança do dessabor. Nos meus momentos mais felizes ainda qdo estou captando o doce nas papilas da alma, sinto uma tremenda incapacidade de aprisioná-lo e uma voz interna martiriza meus sentidos: Aproveita, que a morte e o sofrimento são o seu devir.

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