Sobre a peça de Brecht: “Baden-Baden: A importância de estar de acordo”

brecht

– 27/04 -01/05/2016.
-Direção: Paulo Santana e Marluce Oliveira.
-Composição e direção musical: José Maria Bezerra.
-Promoção: Escola de Teatro e Dança da UFPA.
-Local: Teatro Universitário Cláudio Barradas.

Introdução

O espetáculo começou antes. Antes mesmo de entrarmos efetivamente no teatro Cláudio Barradas, todo o elenco apareceu, vindo do lado fora. Eles corriam e gritavam, chamando a atenção e assustando quem passasse de carro. Mais do que a gritaria, chamou a atenção o figurino dos personagens. A maioria estava de branco. Mas havia quatro deles vestidos de aviadores, num estilo antigo. Talvez da II Guerra Mundial. Os demais eram personagens que pareciam representar tipos comuns de uma cidade grande: o soldado, o padre, a meretriz, o operário, a noiva, a louca, o cozinheiro, médico, etc. Eles ocuparam a parte de fora. E o texto se iniciava ali mesmo. Como um grande coro, introduzindo a plateia ainda meio confusa ao que estava por vir.

Primeiro Ato:

De pé, no portão de entrada do pátio do Teatro, um dos personagens vestidos de aviador começa a narrativa, falando sobre o perigo do “golpe”. O perigo da violência de uma ditadura militar iminente. Logo após ente introito, aqueles personagens, caricaturas de figuras comuns, que se pode encontrar em uma cidade urbanizada, começam a se apresentar individualmente. Nem todos se apresentam. Uma das primeiras a se apresentar foi a meretriz, contando seu drama pessoal, o modo como foi enganado por alguns homens que teve. Mas quem mais chocou com um texto forte, alarmante, foi o operário. O operário fala do perigo do golpe e do risco da indiferença. Levaram os negros, mas como ele não era negro, então não se importou. Levaram os desempregados, mas como ele não era desempregado, então não se importou. Então levaram ele mesmo, mas ninguém se importou porque ele nunca tinha se importado com ninguém. Logo depois, há uma paródia da ridícula votação sobre o procedimento do impeachment da presidente Dilma, que ocorreu no mês passado, na Câmara dos Deputados, quando o voto pelo “sim” ou pelo “não” eram precedidos pelas mais ridículas ainda justificativas. E assim terminava o Primeiro ato: com o grito primal, o alerta e a apresentação dos “comuns”, dos tipos da cidade, praticando o antigo recurso trágico do coro.

Segundo Ato:

Eles terminam a apresentação e nos convidam a entrar. O tetro não tem cadeiras. A plateia faz parte do palco. É o palco da plateia. É um não-lugar de espetáculo. Mais real do que o visor de realidade virtual. No centro tinha uma estrutura de avião. Ele estava quebrado. A estória começa se desenrolar. E logo descem por meio de lençóis os aviadores. Os aviadores parecem perdidos em algum lugar, em algum tempo. Como o avião deles quebrou, o desespero toma conta dos quatro aviadores. Não sabem o que fazer. Enquanto isto, os personagens da cidade os provocam. Perguntam a eles como sairão desta?

Os aviadores não são tipos como os personagens da cidade. Eles representam uma ideia geral. São a humanidade no seu estado de “queda”. Aqui, pode-se ver dois sentidos para a simbologia do caráter “caído” dos aviadores: 1) o sentido teológico do pecado original humano, o seu caráter errático, de quem foi expulso de um paraíso e está aí, para sofrer; e 2) o sentido de “decadência” cultural que Brecht está denunciando. Está exposto o declínio dos projetos humanistas, representado, aqui, pela modernidade do avião e de todos os sonhos de integração e de liberdade. Não se sabe ao certo se eles são militares. O que se pode perceber expressamente é o idealismo deles. Sonham voltar para casa e não morrer naquele não-lugar. Eles são mais que tipos humanos, como disse. São a própria condição humana. Desejam retornar para o paraíso perdido e não aceitam a morte. Por isto, pedem ajudam… Tema central da peça.

Terceiro ato:

O coro, feito pelos tipos da cidade, levam a plateia para os fundos do “palco”. Para a parte de trás do avião quebrado. Lá, eles tentam explicar aos aviadores (de)caídos sobre o que está acontecendo com eles e sobre o que acontecerá. E quem dirá não será o coro. Mas uma dupla de palhaços sádicos. Neste momento, os tipos da cidade que formam uma espécie de coro, junto com os aviadores, ficam observando a ação paralela dos palhaços sádicos. Como se fosse um pesadelo intercorrente à narrativa. Eles formavam um casal de palhaços, interagindo com o Sr. Schmidt. Mas antes de falar dos palhaços, é preciso falar do Sr. Schmidt. Não é um simples personagem. É alguém sobre pernas de pau, usando uma cabeça cenográfica gigante. Ele parece ingênuo. Tem roupa de palhaço também, mas seus traços são agigantados. Interessante notar que o nome dele, Schmidt, uma versão germânica para Smith, seria algo equivalente ao “Silva”. Um nome bem como no Brasil. Um nome “silvestre”, banal. De alguém ingênuo — ou esperto demais como o Sr. Silva, que foi presidente do Brasil por oito anos na história recente.

Esta cena é sombria. Os palhaços sugerem sempre para que o S. Schmidt corte seus membros com dor. Ele pede ajuda. E a ajuda sugerida é o uso de um serrote. Então, os palhaços, numa sessão de tortura-ajuda, auxílio-terror, dilaceram o Sr. Schmidt. Dói a perna, os palhaços a cortam. Dói o braço, os palhaços o cortam. Dói a cabeça, os palhaços a cortam… E nunca sabemos ao certo se eles estão ajudando a aliviar as dores do Sr. Schmidt ou se estão se divertindo com a suas mutilações. O que se sabe é que há uma ambuiguidade aqui. Um duplo sentido entre a ajuda e a violência. A cadeira era oferecida insistentemente para que o Sr. Schmidt se sentasse. Mas os palhações desistem quando o Sr. Schmidt resolve sentar. O jogo, aqui, é frustrar a vítima. Mesmo que a ajudando. Pois a ajuda leva um pedaço dela. É uma não-ajuda. É a violência moderna. A ajuda da morte. Que te tira e retira. O tema é abordado no ápice da peça, quando o coro grita que a ajuda sempre vem precedida de uma violência. A ajuda-violência são lados de um mesmo problema: a subjugação do homem pelo homem. Assim, o coro sugere que caso se queira ajudar mesmo alguém, é melhor que não o ajude. Acabe com a necessidade da ajuda. Somente deste jeito é que se pode não apenas responder, mas destruir com a dúvida fundamental: “o homem ajuda o homem?”.

Quarto ato.

Dando continuidade à provocação de se saber se o homem ajuda o homem, junto com a plateia, os aviadores são levados para a parte da gente do palco aberto. Lá eles discutem sobre o que farão. Como sairão daquela situação, perdidos, com o avião quebrado. Aqui, temos a humanidade na encruzilhada do século XX, com a sua técnica deficiente. Mas não porque não funciona mecanicamente. A ineficiência está na tarefa de buscar “saída” para o caráter errático, decaído, perdido, em que a humanidade se encontra. A techné não serve para fim algum. Afinal, como eles podem ser ajudados? Quem os ajudará? Neste momento, surgem imagens em uma grande tela, em que são projetadas fotos de mutilações, corpos dilacerados, fotos de judeus em campos de concentração, da Lady Diane morta, da Irmã Dorothy assassinada no campo. As imagens são muito fortes. São nauseantes. Respondem à pergunta: não, o homem não ajuda o homem. Mas nem deve. Como o coro disse no terceiro ato, a ajuda pressupõe a violência. E a ajuda sempre pode ser um ato de subjugação. Mas como sairíamos deste estado? Qual Estado nos tiraria desta subjugação? Não é o Estado que nos coloca assim? Quem é o Estado? A sociedade civil? Quais são as nossas promessas? Que lugar é este que iríamos se o avião estivesse pronto para partir?

Considerações finais

A peça suspende a noção de ajuda. Põe em dúvida nossos sonhos modernos. Não pressupõe a bondade humana. Vem nos dizer que só precisa de ajuda quem sofre com a violência do outro. Então não queremos a ajuda do outro. Queremos não precisar da ajuda. Queremos enfrentar a vida… Este não-lugar, este não-tempo, em que (de)caímos do céu e que para lá não voltaremos mais. O instrumento, o meio, o método, estão quebrados. A nós nos resta sonhar. Fugir dos palhaços da morte. E sonhar com o tempo em que o homem não precisará de ajuda. Será que estaremos de acordo?

Foi um belo espetáculo. Figurino bem feito. Som e cenário impactante. Parabéns aos atores recém-formados. Excelente estreia. Queremos mais.

Ricardo Evandro S. Martins
02/05/16

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