Fenomenologia da empatia

Nesta sexta que passou eu saí com Ricardo Dib Taxi para tomarmos vinho. Eu pretendo parar de beber complemente este ano — mas vamos com calma, vinho pode. Foi uma conversa boa. Falamos sobre os afetos, sobre os erros que cometemos na vida e sobre como às vezes o tempo nos traz desaprendizado. Isto mesmo. Em vez de “sabedoria de vida”, própria da idade avançando, encontramo-nos a desaprender…
 
Já no dia seguinte, sábado, acordei tarde. Acabei que não almoçei. Não sei bem. Acho que tinha perdido a fome — coisa rara comigo. Sorte que o Adelvan Oliverio me mandara mensagem, chamando para conversar. Aproveitei para finalmente sair para comer alguma coisa. Nestes últimos meses meus finais de semana tem sido solitários e melancólicos — ok, não só os finais de semana. Eduardo Neves diz para eu fazer disto um livro — quem sabe não escrevo um desses com o Ricardo Silva. Mesmo assim topei o convite e saí de casa.
 
Na mesa, tomando vinho, Adelvan fala sobre Ricoeur e sobre como a narrativa, a memória e a identidade estão tão vinculadas. Na hora lembrei da dissertação do Gilberto Guimarães Filho sobre o caráter narrativo da Constituição de uma país e o impacto de um documento como este na identidade de uma nação. Bem, enquanto ele falava, ia parecendo que estávamos chegando a uma conclusão: parece que há uma chance contra o passado, este tempo irrepetível e irreparável.
 
Nós sabemos que o presente é o tempo da escolha, mesmo que por uma falsa sensação, pois o passado é essa armadura que carregamos na missão que é a vida — para entender a metáfora basta lembrar do personagem de Robert DeNiro em “A missão”, quando, depois de ter matado seu próprio irmão na disputa pelo amor de uma mulher, ele entra num processo de conversão e de noviciado à Ordem Jesuíta, tendo a tarefa de subir os morros brasileiros com sua pesada armadura espanhola.
 
A questão central não é o presente, tampouco o futuro. Pois é o passado que não está pelo menos aparentemente à mercê de nossa liberdade, de nossa ação (“práxis”), deliberação (“proiaresis”) e produção (“poiésis”). Assim, uma vez que a viagem no tempo ainda parece ser físico-quanticamente impossível, como seria possível alterar o passado? E com isto transformaria o presente, abrindo novas possibilidades futuras? Impossível.
 
Será?
 
Conversando com Adelvan, seguindo Ricoeur, talvez haja uma chance. Uma chance contra o passado, sub-deus de Chronos — “Ó, terrivel Tempo! ” (“Ró deinós Chronós! “). Se a memória for mesmo plástica como dizia Freud, passível de seletividade, e se a memória for muito mais do que uma questão neuro-química, sendo em verdade uma narrativa do mito sobre quem nós somos, de nossa identidade, então temos uma saída.
 
A memória não seria apenas o modo de lembrarmos de que somos os mesmos entre os dias, horas e segundos. Ela tambem poderia ser este lugar que habita nosso inconsciente, como o “oceano” do planeta Solaris (Tarkovisky), que devolve nossas memórias materializadas, mas que também alcança um nível da consciência, passível de ser recontado. Narrado de novo. E se pudermos contar (por “poiésis”) uma outra estória sobre a nossa história de vida, talvez tenhamos a chance de sermos uma outra pessoa. Uma chance de ganharmos uma nova identidade. E fazer dela alguém sem as “armaduras” sujas de sangue, próprias do passado, além de aberto para outras possibilidades imprevisíveis ou mesmo esperadas.
 
Assim, a esperança e a consolação de uma nova memória, de um novo “si mesmo”, podem abrir caminho para o perdão de si — este milagre de receber o excesso de amor de quem te perdoa, fruto da injustiça de receber o que não se merece, mas que mesmo assim se recebe, por amor. Aqui, será que o perdão, enquanto ato de amor, poderia ser um exemplo de “se dar o que não se tem para quem não quer” (Lacan), como me explicava Ernani Chaves neste domingo? Bem, ao menos o perdão teria uma versão própria: “dar o que se pensa ter muito para quem não merece”.
 
Com este novo “Eu”, poderia se chegar também, sempre com esperança, contrariando a melancolia, a saudade corrosiva do passado e o pessimismo quanto ao futuro, a um novo presente, quando o “si mesmo” pode encontrar o “outro”, sendo-o. Uma “fenomenologia da empatia” então nasce aqui como o desafio mais difícil do ser humano: o de se tentar compreender o outro, colocando-se no seu lugar.
 
Tarefa difícil. Que desaprendi em algum momento quando deixei de ser criança. O certo é que, se eu conseguir aprender de novo, quem sabe eu não tenha com isto descoberto uma “máquina do tempo” e um modo de ser outra pessoa. Melhor.
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